domingo, 5 de dezembro de 2010

O SALTO ALTO

Acordou com uma taquicardia abrupta, daquelas que assustam o coitado por assombrar a alma com as dúvidas mais impiedosas da existência. Rapidamente, com a mão esquerda, examinou a cama, mas não havia nada. Pior, não havia ninguém. Ela não estava mais lá. Tentava entender como tudo aconteceu. Não sabia. Não conseguia aceitar a presença tão marcante da ausência dela. Ela era linda. Seu corpo um templo de uma luxúria sagrada um caminho de rendenção e rendição sem volta. Justamente, em suas trilhas ele se perdeu. Perdera a razão, os bens, a cabeça e o sono.

Na companhia de um silêncio estérico, os ponteiros teimavam em retardar os seus passos. Incorformado e nervoso, há dias que, nessas horas, convocava o seu amigo escocês: «Venha, Johnnie Walker!» As primeiras doses eram reflexivas. Da quinta em diante, seguia um desabafo. Johnnie era um ótimo ouvinte. Não interrompia. Entretanto, até Johnnie tinha um limite. E quando ele menos esperava, o companheiro e ouvinte fiel já não estava mais lá.

Trôpego, ziguezagueava inquieto. Chorava e sorria com intensidade. Abria o computador e via as fotos, uma a uma. Apagava algumas, depois se arrependia amargamente. O dias e noites, assim, foram passando. As garrafas vazias iam se acumulando em uma estante. Devorava os bilhetes guardados, as cartas arquivadas até os e-mails armazenados. Mas, ao fim, sabia que ela não mais voltaria. Não era possível.
Até que, naquela madrugada, encontrou um sapato dela. Era um belo sapato vermelho de veludo. «Uma peça linda para um pé lindo.», pensava. Lembrou de como ela adorava usar vermelho. Adorava as rosas. Adorava os jardins. Cultuando aquele salto alto, escreveu em um guardanapo:

«Ao longe avisto sua chegada
A alegria percorre meu corpo
Esconderijo não há no entorno
A rendição é então anunciada

Cada movimento, cada passo
Exemplo vivo do descompasso
No fluxo das minhas artérias
Que clamam na mais vil miséria

A agora sanguínea correnteza
Revolta constante, reluntância
Numa eterna e ferina ânsia
De reconquistar tua beleza»


Em prantos, subiu as escadas. No último pavimento, caminhou pela cobertura alucinado. Seus soluços eram engasgos. Subiu no parapeito do edifício e olhou o horizonte com a vista turva. Foi, justamente, quando a viu de braços abertos. Linda como nunca. Ela usava o salto alto vermelho. Não titubeou. Pulou. Foi um salto alto como nunca mais daria igual para os braços de sua amada.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

OS PRESENTINHOS

Pedro namorava Marcinha já há muito tempo. O relacionamento de tão estável ficou monótono. A rotina dos pombinhos era tão severa que o tédio reinava no coração da jovem namorada, que sentia falta dos arroubos e suspiros próprios das paixões violentas e carnais. Pedro nem se tocava, mas faltava adrenalina no romance e sobrava a previsibilidade da mesmice de cada dia. Realmente a burocracia entre o casal era de tal forma dominante, que Marcinha era capaz de descrever detalhadamente a sequência de cada encontro futuro, inclusive do sexo. Reclamava a Carla, sua ouvidora mor:

- Primeiro ele me beija assim, depois eu beijo ele assim. Aí, ele me despe assim, eu tiro a blusa dele, etc. Não muda nada, nunca, amiga! Nunca! Eu juro! Pode uma coisa dessas?

A monotonia tornou-se insustentável. Numa certa noite de sexta, após o coito ordinário da semana, no motel mais próximo de casa, Pedro caiu na besteira de perguntar:

- Gostou meu bem? Foi gostoso?

Marcinha foi sincera como não se costuma ser e respondeu:

- Foi não. Na verdade Pedro, foi uma merda!

Pedro ficou surpreso e envergonhado de si próprio. A pressão de Marcinha sobre ele não foi pouca. Confessou que estava entediada, que Pedro era o culpado, pois não era criativo e fazia do namoro um filme previsível, daqueles tão cheios de clichês que o expectador dorme, inexoravelmente, antes do fim. Pedro se vestiu, pagou a conta e deixou Marcinha em casa sem dizer uma palavra. Foram cinco dias de silêncio. Até que Pedro se encheu de coragem e ligou para sua amada. Pediu uma nova chance. Jurou que iria surpreendê-la. Marcinha cedeu sem muita resistência. Sinceramente, ela estava até empolgada, achava que sua sinceridade extrema talvez acabasse se revelando benéfica, pois teria acordado o pacato Pedro.

Pedro atacou inicialmente com jantares e mimos surpresas. Roupas, também, fizeram parte do repertório inicial. No entanto, em poucos meses já não havia mais um restaurante em João Pessoa que o casal não conhecesse. Os motéis também estavam dominados. Portanto, Marcinha voltou a reclamar.

Em franco desespero, Pedro resolveu ser mais incisivo e contundente. Passou a presentear Marcinha com lingeries. Cada uma mais ousada e sexy que a outra. Marcinha gostou. Depois ele apelou para alguns filmes eróticos. Marcinha adorou. Enfim, resolveu dar à doce menina uns presentinhos especiais: uns brinquedinhos sexuais. Começou com geles estimulantes, depois massageadores clitorianos. Marcinha amou. Depois, partiram para os vibradores. Foram vários e dos mais variados. Experimentaram de tudo que esteve ao alcance. Marcinha conheceu o nirvana. A chegada de Pedro com um novo embrulho nas mãos fazia Marcinha ferver. Um pacotinho que fosse já lhe dava um arrepio. Quando era dos grandes, então, ela ficava maluca. O acúmulo dos presentinhos fez com que ela disponibilizasse um maleta só para abrigar os apetrechos da plena intimidade do casal.

Mas o tempo destrói tudo. Mesmo com todo o aparato sexual que a maleta oferecia, as coisas esfriaram. Assim, o namoro se foi. Dessa vez, foi até Pedro que tomou a iniciativa. No entanto, poucos dias depois, por mais que aceitasse o fim do relacionamento, o pacato garoto não suportava a ideia de Marcinha brincar com os presentinhos na companhia de outros coleguinhas. Pedro respirou fundo e ligou para a ex:

- Marcinha, tudo bem, acabou. Mas quero a maleta! Ouvistes? Quero tudo! Devolves tudo!

Marcinha se recusou a restituir. Primeiro, pois, por mais estranho que pareça, adorava abrir a maleta em sua intimidade e pensar nos momentos que viveu. Segundo, porque, também, não queria pensar na hipótese de Pedro fazer uso deles em outro playground. A negativa causou uma briga sem precedentes entre os dois. O respeito passou longe e a baixaria ascendeu de forma devastadora.

Foi então que Pedro, inescrupulosamente, ameaçou contar tudo a Dona Marta, a mãe de Marcinha. Sem saída, a pobre garota cede perante à chantagem e aceita o encontro para resgate dos regalos da discórdia.

- Poxa, Pedro! És um escroto! Ouvistes!? Tudo certo, devolvo esta maleta desgraçada.

No local designado, em um velho terreno baldio no Bessa, os ex-amantes se encontraram, após meses de intrigas e desentendimentos. Lá, finalmente, transacionaram um acordo. A maleta foi aberta, conferiram cada brinquedinho, um a um. Enfim, a maleta foi fechada. Ato contínuo, Pedro derramou querosene sobre ela e ateou fogo. Enquanto as chamas consumiam o depósito guardião dos presentinhos, Marcinha finalmente suspirava e se inundava novamente de desejo, afogada em tantas lembranças que, agora, literalmente eram apenas cinzas ao vento. Pedro, por sua vez, chorava copiosamente entre soluços.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O CRAVO E O ROSA

Amadeus Rosa era um cara de pouca sensibilidade. Isso não o fazia propriamente mal-educado, entretanto nem sempre era cortês. Dessa forma, ele era um tanto bruto, por vezes, rude. Sempre de falas curtas e com pouca paciência para as questões fúteis ou triviais da vida, primava pela respostas diretas e pelas perguntas estritamente necessárias. Por toda essa crua objetividade, os amigos o chamavam de Rosa. Afinal, seu sobrenome casava de forma verdadeiramente paradoxal com a delicadeza que lhe faltava. Assim, Amadeus era, floridamente, referido sob a alcunha de «ROSA» ou «O ROSA». E, como bem sabemos, as rosas têm espinhos.

Olívia Blanc era o inverso. Um doce de pessoa. Menina fina, em verdade, era muito bem educada. Sua família era importante, mas economicamente decadente. Mas na corte o que vale é a origem, portanto para uma Blanc a pose era importante. A etiqueta impecável era sua marca. Além disso, era prendada nos afazeres domésticos, dominava a arte da gastronomia, fosse o prato regional, nacional e internacional. Foi justamente numa noite especial, regada por finas iguarias gastronômicas que ela conheceu o Rosa.

Era a festa de uma amiga de Olívia. Um amigo do Rosa o chamou, pois não queria ir sozinho. Rosa relutou, mas foi. Na festa, àquela altura, um tanto entediante, ele encontrou Olívia. De imediato, o tempo parou. Era como se Deus apertasse um «slow motion», no controle remoto da vida. Cada movimento dela era milimetricamente analisado e admirado, seu rosto era de devoção dogmática. Ele parecia inspecionar, um a um, cada centímetro de Olívia, cada poro de sua pele. Rapidamente, Olívia comentou com uma amiga:
- Olha só como aquele cara me olha! O que será que ele quer?
A amiga rindo sussurrou:
- Te comer!
Rosa caminhou em sua direção e se apresentou. A conversa iniciou-se amena, com os «O que» e «Quem» de sempre: O que você faz?, O que você gosta?, Quem você conhece aqui?, etc. No meio do papo, quase do nada, o Rosa falou:
- Princesa, posso te dar um beijo?
Olívia respondeu:
- Tá Louco!? Mal te conheço!
Rosa:
- Nenhuma forma melhor de conhecer há que essa! – e tacou um beijo daqueles.
Olívia de início resistiu, mas foi mais forte do que ela. Não Rosa, o desejo. A insustentável leveza do ser a empurrou para os braços do bruto, demoradamente. Quase perderam o fôlego. Quando, finalmente, ela falou:
- Você é muito atrevido, Amadeus!
Ele:
- Nada disso. Sou homem. Você que tá mal acostumada, andando muito com esses burguesinhos. Ainda não sabe como é um homem de verdade.
Olívia com um ar desafiador, retrucou:
- Ah, é?! Suponha que você deva ser um homem desse espécime genuíno. Uma pena você achar que eu não sei o que é um homem de verdade.
Foi quando o Rosa disse:
- Não sabe mesmo! Mas se quiser saber, estou aqui.
Olívia pareceu se transformar. Puxou o Rosa pela gola da camisa e disse:
- Siga-me se for capaz... de verdade.
Refugiaram-se num pequeno quartinho. Era uma dispensa, cheia de salgadinhos, docinhos, bebidas, enfim, o buffet da festa estava ali. Lá, beijaram-se, abraçaram-se, trocaram carícias intensas. Rosa ainda tentou:
- Você é louca é? Alguém pode chegar! Vamos sair daqui!
Olívia vitoriosa e maliciosamente disse:
- Para onde foi aquele homem de verdade que tava lá fora? Acho que continua por lá. Será que tenho que te abandonar e procurar por ele?
Rosa a agarrou com mais força e a despiu parcialmente. Sem suportar mais o desejo, a fidalga moça cedeu. Apoiada entre as prateleiras se entregou com classe. A mão direita se afundou numa bandeja de pastéis, a esquerda, numa de docinhos. Enquanto sua libido se libertava, Olívia experimentou um dos docinhos. «Uma delícia!», pensou. Assim, entregue ao impulso, ela degustava os docinhos compulsivamente. Eram daqueles que tem um cravo-da-índia fincado no meio do docinho de côco. E a cada movimento brusco do Rosa, Olívia mordia o cravo, enquanto o espinho que lhe alcançava denunciava que estava mais viva do que nunca. Ela consumia o cravo e o Rosa. Olívia, enfim, aceitara que era uma grande pecadora. Gulosa como ela só!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A VISITA

Noite de quarta-feira. “Dia de jogo!” - pensei. Mas uma tosse interrompeu meus pensamentos e me relembrou de meu estado patológico. O corpo moído e quente denunciava as mais de vinte e quatro horas de febre. Muita febre. O pior é que em meus aposentos não havia uma mísera televisão. Graças à bondade e literal fraternidade de meu irmão, que tinha me retirado esse essencial equipamento. Na verdade, lamentava não ter ido ao médico... Mais um dia sem tempo... Sem tempo para mim... Tinha vendido meu tempo e percebi o quão onerosa esta negociação poderia ser.

Sem opções, resolvi entregar-me à febre e às dores. Envolto nas cobertas, procurei por um bom tempo o sono. Tudo em vão. Achei a insônia. Coincidentemente, o clima da noite mudava. De uma noite de calmaria, passava-se a tempestade. Os ventos denunciavam o prenúncio da chuva. E como choveu! Nossa! Um verdadeiro aguaceiro. Não lembro por quanto tempo, mas a noite pareceu uma eternidade. Muito vento e muita chuva. A maré alta orquestrava uma sinfonia de ondas oprimidas e opressoras, que reivindicavam respeito ao quebrar na praia. Cheguei a estranhar aquela ressaca imprevista. Mas a noite não me marcaria pelas ondas, ou pela douta chuva. O cenário natural ficaria em segundo plano em minhas memórias. Pois, foi nesta noite que o tempo parou para mim. Verdadeiramente, o tempo hesitou prosseguir quando ela chegou.

A dinâmica da vida optou por parar também. Lembro apenas ter percebido o silêncio, mas o estado febril me impedia de levantar e averiguar suas causas. Foi então que senti a sua companhia. Já não estava só no meu quarto... É difícil explicar... Sua forma humana não me deixa confortável ao ponto de dizer que estava lá com alguém. Ela se parece muito mais com algo que com alguém. Verdade seja dita, recebi a visita da Morte, mas não lembro o seu rosto. Lembro apenas da sensação de sua proximidade. Isto não se esquece. Você já morreu por alguns segundos? Talvez um dia você identifique a sensação que relato. Ela é a essência da falta, o excesso do nada: o fim.

Ela chegou deixou algo escorado, tipo uma bengala, na parede, e sentou-se na beira de minha cama. Com uma voz serena e calma perguntou-me:
- Está pronto?
Respondi – confesso ainda desnorteado:
- Pronto?! Para quê? Quem é você?
- Ora, não me diga que você não percebe o que está se passando? – retrucou minha ilustre visitante.
- Bem – respirei fundo, controlei os nervos e racionalizei o contexto – Posso supor, mas prefiro a objetividade da resposta pelo seu próprio portador.
- Vocês me chamam de “morte”. Eu prefiro me entender como um “Guia”.
- Quer dizer que estou morrendo? Por uma gripe? – explodi - Que merda é essa?!
- Calma Doutor! Gripe mata muita gente, não há nenhum demérito em morrer assim...
- É mesmo?! Você morreu de que?- Rebati
- Bem... eu nunca morri... eu...
- Fácil entender... é um consultor... – confesso que até ri nesta hora - Nunca passou pelo problema, mas entende tudo que se passa.
- Pode ser. Mas... Isso não muda nada... Siga-me, por favor. - Retrucou a Morte um tanto quanto sisuda.
- Estou doente, colega. – respondi apavorado – não posso sair andando pela madrugada com os amigos. – Confesso que, a esta altura, era a definição do desespero.
- Gosto de seu humor. No entanto, você virá cedo ou tarde. – disse ela.
- Pois será tarde. – a esta altura não estava nervoso, mas uma sensação de necessidade aguçava meu senso de sobrevivência - Não há lógica em minha ida assim. Minha família está longe, coisas demais para acabar, coisas demais para iniciar... Não é hora mesmo.
- Advogados sempre presunçosos! – e num é que a Morte deu uma boa risada.
- A questão num é essa. Apenas questiono a oportunidade, deve haver um precedente. Alguém que você “guiou” na hora errada. Não há? - Desafiei
- Não lembro. – Disse ela hesitante, e continuou: - São tantos. De fato talvez uma vez... Talvez... Não. Não! Nenhum engano.
- Mentira! Difícil dialogar com quem falta a verdade! – Repliquei.
- Alto lá Senhor! Respeite-me! Vamos agora e pronto! – Falou firme, segurando-me pelo braço.
Nesse momento, meu corpo literalmente gelou, não sentia mais qualquer sinal vital de minha parte. Em desespero juntei, quem sabe, meu último sopro de vida e afirmei com a voz trêmula e fraca:
- Euu pó-posso provar.
A Morte me soltou e indagou:
- Mas que sujeitinho metido! Pode provar o que?
Foi quando afirmei, já mais firme, com os sinais vitais perceptíveis:
- Que você já se enganou.
Então veio a proposta da Morte:
- Vamos lá! Dê-me um só exemplo de engano de minha parte, que deixo você aqui por enquanto. Ou seja, afinal você num é imortal, então mais cedo ou mais tarde eu volto, mas fico aguardando um novo mandado.
Como falei anteriormente, não sei quanto tempo pensei, apenas não conseguia encontrar nenhum caso de engano da morte, de repente pronunciei desesperado:
- Jesus!!!
Foi quando a Morte esbravejou:
- Ah, não!!! Você também!
Aproveitei o momento de vulnerabilidade que a Dona Morte deixara transparecer e argumentei:
- De fato! Está lá no Novo Testamento, V. Exa. bem que chamou Jesus, mas em 72 horas lá estava ele de volta. É um precedente! Jurisprudência divina e do mais Douto gabarito.
- Num é bem assim - retrucou a morte – Jesus tinha que ressuscitar, fazia parte do combinado. Ademais, ele é Deus e pode tudo!
- Deus-homem! Portanto um homem. Por conseguinte é “alguém”.
- Nada disso, vamos lá – o falar da Dona Morte, mais uma vez fazia meu corpo se tornar imperceptível.
- Calma, calma! Trato é trato! Pacta sunt servanda! Eu falei “Alguém que você ‘guiou’ na hora errada. Não há?”. E você me desafiou a provar. Provei, pois se Jesus é Deus, é também um Deus encarnado, um homem também. É o “Alguém” mais importante da história da humanidade.
- Ai, Deus! – Disse a Morte e continuou:
- Você num entende, eu não errei com Jesus, pois eu não tinha guiá-Lo, pois Ele sabia o caminho.
- Aí não é justo! Como posso ser condenado por algo que não entendo!?? – Arrisquei essa já no desespero.
- Ah, não! Algo que não suporto é ser acusada de injusta. Deixa-me consultar o Salvador aqui.

Um minuto depois...

- Sei não! Às vezes nem eu entendo! Olha só Doutor... Tua gripe foi curada. Passe bem, por enquanto... – E assim a Dona Morte se foi.

E eu que criticava a frase, tantas vezes, aposta nos pára-brisas alheios: “Só Jesus Salva”. Bem a história Dele me salvou, ao menos, temporariamente, posso continuar trilhando meu caminho.

sábado, 18 de setembro de 2010

Encontro com Vó

A medicina não é um ofício fácil. Exige uma vocação do seu exercente, um chamado quiçá divino, na luta pela cura. Tal ofício, a despeito de sua beleza humanitária, nem sempre é prazeroso. Primeiro, tem-se que considerar a extensa maratona até o pseudolivre exercício da medicina. O desafio se anuncia no vestibular, sempre muito concorrido, e se estende por cerca de seis longos anos de graduação, até a definição da área de especialidade desejada. Esta última etapa transcorre em um intervalo de dois a cinco anos, dependendo da especialidade. No entanto, após estes obstáculos, o mar de rosas se instala em consultórios frios, onde os pacientes são recebidos por ferozes cães secretários tão higienizados quanto à moral dos mentores do cenário que a todos ali circunda. A indústria da cura, enfim, premia aquele que vocacionado optou pela vida de pajé businessman. Foi o que fiz.

Mas a verdade é que a faculdade é um poço de incerteza e superficialidade. Decora-se muito e se entende pouco dos fins e meios. Diagnóstico: o «Te vira!», na fase terminal (a residência). É na residência médica que se apreende a essência do ofício, o verdadeiro aprendizado para ser médico. Pois, é, lá, abandonado num plantão, em plena madrugada, que o futuro curandeiro, já Doutor, se acotovela com a casta dos guerreiros enfermeiros na tentativa de salvar vidas. Afinal, Hipócrates nos faz jurar que não nos omitiremos na prestação de socorro a quem quer que necessite. Foi justamente quando estava em residência, no sofrível ambiente ambulatorial do hospital universitário, que testemunhei o que agora passo a relatar.

Não sei exatamente que horas eram, também, neste episódio, a hora não é importante. Sei que era madrugada. Daquelas mais frias, que o mês de julho traz à Campina Grande. Estava, naquele dia, incumbido da pediatria da oncologia. A verdade é que, aquela altura, minha percepção médica já estava bem formada e não mais me sensibilizava com os pequenos corpos débeis e calvos que habitavam aquela ala. Ocorre que, desde o nascimento do meu sobrinho, passei a imaginar o quanto algumas vidas tinham tanto a mais em relação às outras. Enfim, resolvi aproveitar a oportunidade e verificar o trabalho dos enfermeiros quanto ao respeito aos elixires farmacológicos indicados por meus colegas de jaleco.

Examinei o primeiro quarto. Estava tudo em ordem. Eram dois casos similares, medicação parecida, com os ajustes devidos em face da evolução de cada quadro patológico. Então, adentrei, no segundo quarto, para minha surpresa, na penumbra, visualizei uma velha Senhora, vestida em lã, com lenço na cabeça. Não consigo lembrar seu nome, talvez, lamentavelmente, eu nem o tenha perguntado. Assim, neste momento, vou tratá-la de “Vó” apenas. Não compreendi como ela ali tinha se instalado uma vez que era uma área que não comportava acompanhantes. Foi então que perguntei:

─ A Senhora entrou aqui com autorização de quem?

─ De fato me chamaram aqui. Vim e eles estavam ainda acordados, brincamos e conversamos um pouco. O Lucas quer ser goleiro de futebol. João metaleiro. Nem sei bem o que é ser isso, mas ele falou que vai usar um cabelão enorme. Adorei! ─ Vó falou, então, calmamente.

─ E não avisaram a Senhora que tinha que sair? ─ insisti na tentativa de elucidar para Vó que estava ela infringindo uma norma do hospital.

─ Não. Nada me disseram neste sentido. Não hoje. Você vai me expulsar? Sei que podes fazê-lo, afinal o Doutor estaria com sua plena razão. Mas é que amo esses meninos! ─ respondeu Vó.

─ Não vou expulsá-la, mas que isto não se repita. Tá certo? ─ sentenciei.
─ Muito obrigada. É que estes meninos são irmãos e me impressiona a vontade que demonstram em seguir seus sonhos. ─ disse Vó.
─ Lamento uma mesma família ter dois meninos doentes. Pode ser hereditário. Desculpe... A senhora é parenta próxima? ─ perguntei.

─ Sim. São filhos praticamente. O Doutor está certo. É hereditário. Como tudo que temos e somos, outros já tiveram e foram. O Doutor sempre quis ser médico? ─ perguntou Vó.
─ Bem, sempre quis sim. Só quando eu era muito menino quis ser malabarista. ─ respondi aquela altura, confesso, já simpatizando com Vó.

─ Você não deveria ter desistido, seria um ótimo malabarista tenho certeza. Ademais, faria vários pequenos como estes dois aqui sonharem em ser malabaristas, também. Deixe-me ver suas mãos! – estendi as mãos e Vó as massageou com firmeza, e falou – Como são firmes! Demonstram uma musculatura bem coordenada. Daria um bom cirurgião.

─ Estou caminhando neste sentido, mas a cirurgia que realmente quero é a cardíaca e isso me fará ficar aqui mais três anos, e não sei se vale a pena... ─ foi quando Vó me interrompeu.
─ Vai desistir de seu sonho de novo Doutor? ─ perguntou Ela.
─ Não sei. Decidirei oportunamente. Mas a senhora quer algo para comer? Posso tentar trazer-lhe logo cedo uma refeição, junto com a dos garotos. ─ Ofereci a refeição meio sem jeito, pois teria que bancar a mesma, uma vez que o hospital não alimenta acompanhantes lícitos, imagine, então, os ilícitos.
─ Não se preocupe. Tudo que quero está aqui junto, e logo que amanheça partirei esperando não causar problemas. Obrigada, Doutor. ─ Logo que agradeceu, Vó segurou minha mão e a beijou com ternura.

Confesso que não mais lembro o que, ou mesmo, se falei algo quando da despedida. Apenas me lembro que ao voltar para a sala do plantão cochilei, confortavelmente, invadido por uma calma tremenda. Acordei com a enfermeira, também, de plantão me perguntando sobre uma certa medicação. Logo que respondi, olhei para janela e o sol começava a saudar o dia. Lembrei de Vó e fui ao quarto onde estavam os irmãos. Era o quarto de Lucas e João. Lá, ainda dormiam e Vó não mais estava. Perguntei a enfermeira se ela tinha visto a simpática Senhora, mas a mesma me respondeu negativamente.

Apesar de meu plantão acabar às seis da manhã, esperei os garotos acordarem, o que só aconteceu por volta das sete para a tomada da medicação. Foi, então, que conversei com Lucas sobre quem seria Vó. Ele não pareceu entender bem o que eu perguntava, mas confirmou que queria ser goleiro de futebol. Queria ser o guarda-redes do Flamengo. João acordou e falou de como gostava de rock, na verdade ele “curtia heavy”. Quando perguntei pela terna Senhora, se seria sua avó ou tia, ele respondeu que era “Vózinha”. Ele então falou:

─ Ela é minha amiga do hospital, disse que também sente dores no coração quando entra aqui. Mas que um dia vai ficar boa. Disse que eu ia tocar na banda de heavy quando eu crescer. E eu falei para ela que queria ver Lucas levar um frango. Ela disse que eu ia, pois ele ia agarrar na televisão um dia.

A verdade é que ao examinar os prontuários de Lucas e João constatei que não eram irmãos. Continuei visitando aqueles meninos, tentando reencontrar Vó. Foi em vão meu intento. No entanto, pude ver dois pacientes de leucemia curados, em meses, numa evolução constante de seus quadros. Desde lá não consigo esquecer Vó, e não consegui mais abandonar meus sonhos. Sou cardiologista, e uma vez por semana me dedico a visitar hospitais de câncer de idosos e crianças onde converso e faço malabarismos para entretê-los. E é fazendo esquecê-los do tempo, que descobri meu espaço. E se Vó não quis, ou não pode, mais me visitar, acho que Ela teve Seus motivos. E seja lá qual forem Suas razões, que assim seja Vó. A cada sorriso que recebo, sou mais grato a Ela, e me aproximo da felicidade.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Jesus encontra Zaratustra

Num lugar perto do longe um encontro quase surreal foi sacramentado. Poucos poderiam prever, mas alguns saberão, ao tempo devido, refletir acerca das conseqüências transcedentais deste único diálogo.

Lá estava Zaratustra debaixo de uma jaqueira farto ao lado de dezenas de caroços. Jesus se aproximou, olhou Zaratustra com seus francos olhos negros, sorriu de forma fraterna como só ele sabia, foi quando ouviu o balbucio do profeta:

- Se queria jaca já era... acabou... a última comi nesse instante.

Jesus com extrema simpatia esclareceu:

- Não, não amigo. Venho caminhando faz um bom tempo e fui atraído pela sombra desta linda árvore. Posso compartilhar?

Zaratustra respondeu prontamente:

- Pode sim. Mas só evite ronco e flatulência, pois estou no desjejum.

Jesus gargalha e se encosta ao tronco, e pergunta:
- O amigo o que faz?

Zaratustra respondeu:
- Faço minha parte na missão te todos. Esclareço, levo o que sei a massa ignorante dos humanos que ainda não percebem a existência do super-homem.

Jesus:
- Entendo esta dificuldade de ensinar. As pessoas se julgam cientes de tudo e temem mudanças, não é fácil apresentar-lhes os ensinamentos de meu Pai.

Zaratustra:

- Seu pai era profeta? Professor?

Jesus:
- Meu Pai é o Criador de tudo e de todos. É seu pai também.

Neste momento Zaratustra, interrompeu:
- Meu acho que não. Deus? É ele?

Jesus:
- Este é o seu nome mais popular.

Zaratustra:
- Você num herdou muita coisa, né?

Jesus:
- Bem, herdei a luz, o caminho, penso ser muito mais que preciso.

Zaratustra:
- Mas luz não enche barriga, e caminho dá é calo no pé. De qualquer forma meus pêsames.

Jesus:
- Pêsames?!

Zaratustra:
- Ora, claro! Pela morte de teu Pai.

Jesus:
- Mas irmão, ele não morreu. O seu Espírito é Santo e imortal. Continua vivo em mim, e você...

Zaratustra:
- Em mim mesmo não... A verdade é que você está só no mundo.

Jesus:
- Velho andante. A solidão te arrebatou a noção do mundo eterno.

Zaratustra:
- Nada é eterno... A solidão me fez compreender que o super-homem governa a si próprio e não merece por isso nenhuma compaixão.

Jesus:
- Façamos um trato irmão. Liberte-se de seus preconceitos e abra seu coração para as palavras que agora direi...

Zaratustra:

- Ô menino danado! Que abrir coração! Meu coração é forte e já não se emociona com hipóteses. Mas façamos um trato... Tu silenciarás e venerarás teu Pai. Eu celebrarei o super-homem, e assim viveremos em paz neste mundo.

Jesus com um largo sorriso nos lábios:
- Como queira velho andante, o tempo nos pertence, a paz temos realmente que conquistar. Mas um dia se entregarás ao amor do Pai. Pois, ao fim só há conforto na fé.

Após estas palavras, encostados na jaqueira, Jesus e Zaratustra tiraram um merecido cochilo.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A DITA CUJA

Márcio era um canalha. Canalha mesmo! Com «C» de «Cachorrão». E o pior era que ele era um cara perigoso, daqueles ardis que são capazes de interpretar qualquer personagem para obter a conquista que o interessa no momento. Mas, até Márcio, haveria de penar com Gisele. Ela se dizia santa, fazia o tipo beata, daquelas que é «glória» para cá, «aleluia» pra lá. Mas, o corpo de Gisele era um pecado escancarado, verdadeiro despudor divino, dotados dos exageros exatos nos traços fundamentais da estética feminina. Pensem numa bunda!

Márcio a viu de passagem, num domingo, quando a mesma voltava do culto. Nem a viu direito, mas quando ela passou... «Meu Deus! Que dorso era aquele!» Pensou... Pensou... Deu a volta no quarteirão correndo, quando fez dois lados do quadrilátero urbado, avistou Gisele. Diminuiu a marcha. E quando estava cruzando com seu alvo, soltou a isca:

- Moça, eu estava procurando um templo...

Logo, foi interropido pela jovem:

- O da Santidade Maior da Graça Divina do Senhor?!

Ele, estupefato com a beleza de Gisele, disse:

- Esse mesmo!

Ela retrucou:

- Fica na rua paralela, acabo de sair de lá, que coincidência! Mas hoje nem tem mais culto...

A bela santidade era uma tagarela quando o tema era religião. Enfim, naquele encontro Márcio conseguiu o telefone dela e o acerto de irem ao culto no domingo seguinte.

Foram meses de uma atuação impecável. Márcio traçou a seguinte linha performática: era um ex-viciado em sexo. Seu pecado era a luxúria! Mas na fé, encontrou solução para o problema. A amizade religiosa virou um namorico santo. Nessa fase, sob o pretexto de se entregarem em alma, Gisele pedia que Márcio «confessasse» seus maiores pecados pretéritos. Enquanto ele e sua mente insana produziam as estórias mais calientes que era possível de se imaginar, a sua dileta ouvinte fervia. Era uma erupção contida, que provocava uma implosão nervosa, como resultado de uma profusão de sinapses.

Gisele não era virgem. Ledo engano amigos inocentes! Ela tinha sido uma garotinha levada. Obviamente, sua versão era outra. Disse a Márcio que um garoto tinha se aproveitado dela. Que ela só tinha quinze anos e, por isso já se penitenciou muito, etc.

Passo a passo, Márcio conseguiu evoluir nas carícias. Até que a coisa perdeu o controle. Estavam na casa dela, quando a mãe da santinha saiu para ir ao salão. Teriam, pela primeira vez, umas três horas para se dedicarem ao prazer. Não deu outra! Gisele tirou toda a armadura têxtil que a envolvia. Restou só a blusinha, entre um amasso e outro, já estava de calcinha. Ela usava uma cinta-liga! Márcio incendiado já estava nú fazia tempo! Ela o manipulava literalmente com fervor. Ele, então, rasgou-lhe a calcinha e a possuiu com vigor. A bela Gisele, quando deu por si, já estava tomada por uma energia cósmica indescritível e gritava:

- Ai! Ai meu Deus! Meu Deus! Ai!

Márcio enlouquecido de excitação soltou a pérola:

- Vou foder essa buceta, sua gostosa!

A máscara caiu. Foi como um sinal de alerta, mais, um sinal vermelho de perigo, um alrme. Gisele o empurrou, afastou-se e disse:

- Nossa! Marcinho! Que coisa mais feia! Que pecado! Meu Deus, o que távamos fazendo!?? Viu só? Você já estava me tratanto como uma meretriz!

Márcio inquieto, ofegante e arrependido:

- Meu amor! Me desculpe! É que você me deixa louco! Perdoe-me! Venha aqui...

Ela retrucou;

- Não! Não está certo! Estamos em pecado. E o que você falou foi horrível...

Ele investiu:

- Minha santinha, eu te amo! Você sabe disso! Venha aqui!

Começou a beijá-la. E logo ela foi cedendo... até que a entrega foi total novamente. Voltaram os «Ai meus Deus!». De repente, ela o empurra novamente e fala:

- Nunca mais fale aquilo! Ouviu Márcio Cruz!??

O crápula então se superou, nos seguintes termos;

- Ou meu docinho... Me fale então como eu chamo essa graça que você possui aqui? Tão... ai... tão fervorosa, linda... me diga!

Sem raciocinar mais direito, a Gisele em êxtase respondeu;

- Chama ela de «dita cuja»!

Márcio finalmente bradou:

- Hoje será o apocalipse meu bem! Sua «dita cuja» finalmente encontrou minha «dita dura»!!!

Lá ao longe, um vizinho escutou em tom estridente um «Amém!!!». Achou que era mais uma celebração da imaculada Gisele. Não sabia ele que a «DITA CUJA» estava em redenção.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

REFLEXÃO

Em momentos diversos de nossa vida, deparamo-nos com o vírus da reflexão. Trata-se de uma patologia humana de cunho avaliativo que, para alguns, pode ter definição naquilo que chamamos de «consciência». Determinados momentos de nossa vida estamos mais susceptíveis a tal sorte. Um deles, sem a mais mínima dúvida, é nosso aniversário. Eis, então, que aqui estou: vitimado pela reflexão.

São trinta e dois invernos somados a trinta e um verões, uma avalanche de emoções, muitos amigos e poucos arrependimentos. Qual o resultado dessa fórmula? Ouso pensar que é, primeiramente, gratidão. Sou grato por tudo que vivi. Pelos momentos de dificuldade que tanto me fortaleceram, pelos prazeres tantos que experimentei, pelos lugares que caminhei, pelos papos que fora joguei, pelas dores que senti, pelos beijos e abraços que presenciei.

Mas é inegável a mim mesmo, ou seja, não consigo me enganar se também, não atribuir a essa fórmula um outro resultado: a amizade. Confundo, sinceramente, amizade e amor dada a força e hipertrofia que aquela apresenta em minha existência. Tento ser amigo, pois o que busco desde cedo é encontrar amigos. Sou amigo de meus familiares, pai e mãe, irmãos e demais. Assim os tenho hoje: grandes amigos. Meu filho é meu melhor amigo, com ele tento viver e sentir o que de melhor posso me permitir. Minha namorada é minha grande amiga. Mas, e meus outros amigos? São do bairro, da infância, do colégio, da faculdade, do handebol, do judô e jiu-jitsu, da noite, da faculdade, do trabalho, enfim, de toda uma vida. São todos irmaõs, consequentemente, tornaram-se família também.

Eis a equação síntese de minha reflexão: gratidão + amizade = felicidade. Estou feliz. Não posso esconder. A gratidão ao Grande Arquiteto pelas amizades que me propicia. Aprendi que é falsa a máxima de que «poucos serão seus amigos numa vida». Pois, um só amigo é muito, um tesouro tão valioso e suficiente que deve ser sempre preservado. Que eu consiga ter a sabedoria de resguardar, fortalecer e vivenciar cada uma de minhas amizades, pois o valor do que possuo é inestimável. Assim, entre vocês, meus amigos, sou feliz e me sinto verdadeiramente amado. Obrigado!

sábado, 31 de julho de 2010

BORDEL MANAÍRA


*Nota explicativa: não se trata de um conto, mas de uma triste realidade


A ruas, legalmente, são bens públicos de uso comum do povo. Mas o fato de ser público, não permite que o ambiente seja usado indiscriminadamente para qualquer fim. Lamentavelmente, nossa sociedade parece não perceber isso. E, assim, pouco a pouco, Manaíra foi sendo abandonada. Pelo menos, duas de suas artérias principais, a Av. Edson Ramalho e a Av.João Maurício estão totalmente tomadas pela prostituição.
A denominação Manaíra significa “Seios de Mel”. Refere-se a uma triste lenda indígena. Manaíra era uma jovem e bela índia que fugiu por amor para casar-se com um jovem índio de outra tribo. Ocorre que ela estava prometida ao índio Piancó, um poderoso chefe tribal dos índios Coremas. Pela ousadia, o Cacique Cangussu, pai de Manaíra, entrou em guerra com a tribo de seu amante. Ao final, consagrando-se vencedor na batalha o Cacique Cangussu mandou matar a bela jovem Manaíra e seu amante. Tudo pela honra de sua palavra perante Piancó.
Pois, eis que a lenda de Manaíra parece assombrar o bairro que a homenageia. Lá, a honra não tem espaço entre as crianças semi-nuas que ofertam sua pureza ao preço vil do abandono social. Não se diga que tudo ocorre, na escuridão da madrugada, na calada da noite ou nas trevas. Tudo começa ainda cedo, no horário do rush, sob as luzes dos painéis publicitários e milhares de faróis que iluminam o caminho de casa. Os atletas continuam suas caminhadas e corridas, desviando dos sensuais obstáculos vivos e oferecidos. A família passa assustada. Estão todos embaraçados. Pais e filhos já não ousam caminhar na beira-mar. As jovens turistas desavisadas recebem propostas e buzinas como souvenir de nosso paraíso urbano. Obviamente, no decorrer da noite o abuso continua. A inocência se perde nos carros, não raramente, luxuosos e envenenados pela luxúria irresponsável de seus condutores. São meninas, meninos, mulheres e homens, no comércio profano do corpo, lambuzados em mel impuro da omissão que atrai a corja covarde que habita os formigueiros do oportunismo.

A polícia passa, mas não para. As autoridades sabem, mas não agem. A sociedade vê, mas ignora. Todos estamos preocupados com temas mais relevantes que a exploração sexual de menores e de maiores. De nada importa a degradação humana, em meio ao álcool, ao fumo, e as drogas. De nada importa o rufianismo paterno, materno ou de qualquer outra modalidade familiar. Nada disso é importante. Manaíra virou um bordel ao céu aberto. Um luxuoso antro com uma vista linda para o mar ou para suntuosidades das lojas de grandes marcas e impérios econômicos. Manaíra faz dinheiro vinte quatro horas. Isso é importante! Somos os Cangussus da pós-modernidade. O dinheiro é o Piancó dos nossos tempos, e a ele tudo, até a honra de Manaíra.

Mas, o que eu tenho com isso? Nada. Afinal, sou apenas um orgulhoso campinense residente em Intermares e apaixonado por nossa Capital.

domingo, 18 de julho de 2010

O DIGNÍSSIMO

O dia começou acelerado para ele. Hoje era o grande dia. Finalmente, ele iria encontrar Alice. Alan era um cara bonito, alto, bom papo, extrovertido. A questão era: Alice não era sua namorada. Sua namorada era Paula. Paula, por sua vez, era linda. Realmente era de uma beleza angelical, detentora daqueles rostos instactos, imaculados, que só as meninas mais santas podem ter. Paula era para casar! Mas, Alice era uma coisa! Uma coisa diferente, mas uma coisa... Alice era para se pegar. Assim, Alan estava decidido: pegar Alice, casar com Paula.

O nó górdio era que Alice não sabia de Paula. Obviamente, a recíproca deveria ser necessariamente verdadeira. Por isso, Alan ligou, logo cedo, para Paula:

- Amor, o dia tá uma correria! Vou tentar acabar tudo para nos vermos a noite! Como você está? Tudo bem? Que bom...

No início da noite, Alan ligou para Alice e combinou de se encontrar com ela num bar. Disse que iria logo após um jantar de família, aniversário de um primo querido. Sabe como é... Em seguida, ligou para Paula:

- Paixão, vou chegar cedo, hoje, aí! Tou cansado. Senão acabo dormindo, ok? E quero muito lhe ver! Beijo, amo demais!

Alan chegou em tempo para sentar-se à mesa durante o jantar. Comeu muito, dizia-se faminto. Paula, sempre mimando-o oferecia um pãozinho, uma sopinha, etc. Logo após a ceia, foram para a sala, quando o telefone dele toca. Ele olha o visor e não atende. Paula observou tudo, mas acabou preferindo não se manifestar. Eles sentam-se ao sofá e trocam os primeiros beijos, quando, então, o telefone vibra na calça de Alan. Ele não atende. Com poucos minutos, ele se levanta e vai ao banheiro. Paula resolve segui-lo e quando se aproxima do corredor, na frente do banheiro, Alan, ainda no telefone, emposta a voz e fala:

- Poxa, Jack! Vou nada cara! Tou mortinho vou dormir cedo hoje! Beleza? Vou indo.

Jack era o irmão de Alan. Nesse momento, Paula caminhou até o seu digníssimo namorado, deu-lhe um beijo na face e disse:

- Meu bem, você tá cansadinho, né?! Então vou lá pro quarto que também quero deitar cedo hoje.

Então Alan respondeu:



- Já meu docinho!? Tudo bem... Vou conversar com seu pai, no terraço, depois vou lá me despedir de você.

Ela para o quarto, ele para o terraço. Alan, então, ligou para Alice reforçando o encontro. Falava baixinho. Enquanto isso Paula estava no MSN, puta da vida. Sabia que estava sendo enganada, mas não sabia o que fazer. De repente, «José Acaba de iniciar sessão». José era um colega de academia. Bichozinho perigoso esse. Ela o achava lindo e gente boa, além disso, ele sempre a seguia com os olhos pelo maquinário durante os exercícios. Outro dia, Alan discutiu com ela a razão dele estar adicionado ao MSN de sua amada. Foi uma briga feia, depois nem ela sabia o porquê de ter defendido a adição dele ao seu rol de amigos. Enfim, José começou logo a conversa:

José diz: Boa noite! Como vai a princesa mais bela do Reino?
Paula diz: Boa noite J
José diz: O que você faz aqui essa hora? Namorando não?
Paula diz: Fui abandonada!
José diz: Que pecado! Eu num faria isso.
Paula diz: Não? Faria o que?
José diz: Eu estaria ao seu lado, o mais próximo que fosse possível, que vc deixasse tb lógico
Paula diz: hummmm parece interessante
José diz: seria sim
Paula diz: Mas isso num é possível. Essa aproximação.
José diz: é sim, liga a cam

Paula ligou a webcam e deu um sorriso malicioso que contrastava com sua face angelical. A conversa, então, continuou por um bom tempo, até aqui:

José diz: Vc é muito...
Paula diz: o q?
José diz: linda! E tb outras coisas
Paula diz: vc acha?
José diz: acho e faz tempo, vc sabe disso
Paula diz: sei sim tb acho vc bem interessante
José diz: é?
Paula diz: é, esse seu corpo é bem forte
José diz: isso num vale eu aqui só de short, vc aí embalada na cama. Isso é lençol né?
Paula diz: rsrsrss é sim, mas vc acha que posso me livrar deles?
José diz: demorou gatinha
Nesse momento, enquanto Alan camuflava as ligações em que arquitetava o seu álibi, sua namorada se despia de forma ardente defronte a tela do laptop. Sua beleza invadia o monitor de José que em êxtase manipulava sua masculinidade. O digníssimo ao telefone, ela na webcam, José na mão e a Alice, a outra, sussurrando por companhia. Nessa algaravia frenética e sexual... José tinha tudo. Tinha o corpo lindo de Paula com seu rosto angelical transformado. Seus seios rígidos e firmes. O corpo de Paula era dotado de curvas únicas. Tratava-se de uma sinuosidade afrodisíaca. Seus segredos tão bem cuidados, eram um convite ao amor. José via, não cria, mas queria. Sua carne transpirava, por seus poros escorria o desejo de ali estar entre os lençois do anjo Paula. Pensava em se jogar na tela, só para ter o prazer de sentir a imersão naquele ambiente, que exposto estava na sua bendita frente. Nesse momento, o digníssimo bate à porta. Paula fecha o notebook e veste a primeira roupa que encontra. Abre a porta e fala:

- Oi amor! Já vai?

Alan responde com aquela atuação digna de um Oscar:

- Tenho que ir. Tou morto. Beijinho.

Assim, Alan encontrou Alice. Os dois ficaram algumas vezes, mas logo ela percebeu o seu jogo e nada mais rolou. Paula se entregou a José, primeiro virtualmente, depois teve a dignidade de se entregar pessoalmente de cabeça erguida e sem dúvidas. Até que chegou o dia em que Paula deixou Alan e José foi elevado aos céus, na condição de digníssimo namorado do anjo.

terça-feira, 6 de julho de 2010

NADA

Alberto era o caçula da família de três irmãos. Seus irmãos sempre foram fortes e atléticos, mas Alberto não. Na verdade, Alberto, apesar de não se dedicar a qualquer esporte, tinha uma estrutura física avantajada. Fazia questão de dizer: "Tudo natural! Sem malhação nenhuma! só o dedinho de Deus.". Por ser o caçula, Alberto sempre foi protegido e isto acabou afetando-lhe a personalidade. Talvez por não ter resolvido boa parte das broncas que patrocinara na adolescência, Alberto tornou-se um namorado altamente ciumento e machista. Azar da Ana.

Ana reclamava, mas, no fundo, gostava do ciúme excessivo de Alberto. O estilo dele - “homem brabo do sertão” - tinha lá seu charme. Porém, Alberto, vez por outra, mandava ela se calar na frente dos outros. O ato machista e agressor encontrava em Ana apenas obediência. Assim, do namoro para o noivado foi um pulo. O casamento chegou tão rápido quanto. Festa linda, com um certo requinte. Ana muito feliz. Alberto meio incomodado com tanta “cerimônia”, mas cumpriu seu papel. Aguentou as infinitas fotos. Depois, concluiu que não sorriria mais durante meses, o estoque havia esgotado.
A vida de casado ia bem entre os dois. Alberto não era farrista, era do tipo que bebe domingo, mas só em casa com os amigos e a família, sem badalações. Ana, até que gostava de um movimento, mas abdicara, conscientemente, desta predileção no “sim” do casamento. Alberto gostava mesmo era de receber os irmãos, os cunhados, seus pais e sogros em casa. Comer bem, beber melhor ainda, e jogar conversa fora enquanto as mulheres lavavam a louça.

No entanto, apesar de toda essa vida pacata que levava, Alberto fazia questão de demonstrar seu ciúme. Certa vez, por exemplo, proibiu Ana de comprar qualquer coisa na padaria do bairro, pois cismara que o padeiro “estava sorridente demais” para sua esposa. Ana ficava revoltada, mas se submetia. Porém, Alberto tinha uma grande qualidade, era atencioso com sua família. Não deixava de cumprir com os compromissos familiares, enfim muito trabalhador. E mesmo, na vida puxada de engenheiro civil de uma grande construtora pessoense, fazia questão de pegar e levar as crianças no colégio.

O espírito agitado do varão afetava-lhe o sono, que acabava por ser leve. Facilmente, despertava a qualquer sinal de barulho. Muitas e muitas noites, acordava, na madrugada, achando ouvir algum barulho estranho nos arredores da casa. Por vezes, eram gatos em coito, naquela algarraza felina que parece violenta, mas sem a qual não haveria os amados gatinhos. Outros barulhos não eram identificados. Essas ocorrências acabaram por se tornar rotina. Alberto acabava por aproveitar-se da situação e fazer uma média com Ana. Perguntava:

- Você ouviu? - mesmo sem ter certeza se ouvira.
Ana respondia assustada:
- Não! O que?!
E Alberto aplicava o golpe:
- Vou ver! Reze para não ser nada, pois se pego um marginal aqui... eu mato!
Ana ficava apreensiva, até o retorno do amado. Alberto de forma segura e enfática pronunciava:
- Não era nada, Amor. Venha mais para cá, venha...
Ana tinha motivos para sua apreensão, pois em poucos anos a vizinhança se modificara, de um lugar calmo e tranqüilo, para um ponto perigoso. Ocorre que, certa noite, Alberto acordou com um barulho realmente. Eram passadas no jardim. Pensou no que fazer, mas um frio percorreu-lhe a espinha, um suor gélido inundava a testa. O pior que as passadas eram intercaladas com barulhos outros. Ana acabou por acordar. E disse:
- Amor! Tem alguém lá fora!
Alberto, após uma certa pausa, respondeu:

- Não é nada, Ana.
Ana, no entanto, retrucou:
- Você não está ouvindo!? Tem alguém lá fora! No quintal!
Alberto, então, segurou-lhe o rosto com as duas mãos e repetiu lentamente:
- Não é nada Ana! Nada! Entendeu!?
No dia seguinte Alberto sentira falta dos sapatos que colocara para secar após engraxá-los. Ana, também, sentira falta das roupas que estavam no varal, mas nem chegara a comentar com Alberto. Na verdade manchas de pés no muro do quintal falavam por si próprias. No final de semana seguinte, Albertou pintou todo o muro. Desde então, Alberto não mais incomodou Ana com perguntas controladoras.
Na primeira reunião de família seguinte, recebendo o cunhado em casa, após o almoço, colocou o avental e começou a lavar a louça. Seu cunhado surpreso disse de forma jocosa:
- Lavando os pratos! Que novidade é essa?
Ao que Alberto respondeu firme e sério:
- Isso mesmo! O que tem de mais nisso? Lavar? Passar?!
O cunhado então respondeu:
- Nada, ora!
Replicou Alberto em sua intervenção final, meio disperso:
- Pois é, não é nada demais. Nada...

sábado, 19 de junho de 2010

O RELÓGIO


Por mais uma vez, Dona Penha acordou sentindo um calor fora do comum. Nos seus setenta e poucos anos, talvez não lembrasse de um verão tão quente em João Pessoa. Em verdade, estava em Cabedelo, mas como «em sua época», como afirmava, «tudo era João Pessoa». Levantou-se, lentamente, com a certeza de que seus ossos estavam um pouco mais frágeis do que ontem. Procurou os óculos, tateando com a mão direita na pequena escrivaninha ao lado da cama. Colocou-os. Levantou. Dirigiu-se ao banheiro, onde satisfez as primeiras necessidades do dia em nome da boa higiene. Voltou ao seu leito e arrumou a cama cuidadosamente. Era um orgulho diário, um momento que refletia e sentenciava: «Isso, sei fazer como ninguém!».

Preparou seu café, logo após abrir todas as janelas do apartamento. Que calor! Colocou um ovo para cozir. Pão integral, queijo, iogurte... Tudo pronto! Sentou-se à mesa. Lembrou do tempo em que a mesa era mais animada. Havia mais gente. Havia assuntos. Hoje? Só lhe resta lembrar. E assim, lembrava...

Vestiu uma roupa leve e saiu para sua caminhada. Sete horas da manhã e o calor já incomodava. Acabou decidindo que caminharia um pouco menos, pois já estava mais cansada do que o comum. Em casa, sentia as artrites e artroses suas companheiras, cada vez mais, presentes. Ligou a TV. Os programas não a interessavam mais em nada. Pelo menos o alto volume do aparelho, dava uma sensação de se estar acompanhada, enquanto preparava seu almoço. Olhou para o relógio. O encontro dos ponteiros anunciava a hora da segunda refeição. Sentada à mesa, sentia novamente a falta de uma companhia. Onde estariam seus filhos e netos? Todos estão sempre ocupados demais. A vida hoje é tão corrida, que já não se sobra tempo para se viver.

Após o almoço, lavou o prato e as poucas pequenas panelas. Misssão cumprida, sentou-se diante da TV para mais uma sessão de programas vazios. Olhava o relógio, mas a tarde era sempre lenta. Parecia o período mais perpétuo do dia. Resolveu limpar suas coisas. Por alguma razão, escolheu espanar os velhos álbuns de fotografias. Ao final, acabou por enxugá-los das tantas lágrimas que rolaram. «Estou por demais emotiva!», pensou. O calor sufocante aumentava, decidiu ir caminhar.

Dona Penha tirou as sandálias e caminhou um pouco na beira-mar de Intermares. Olhou a paisagem com uma imensa alegria. Admirava aquelas pipas enormes e coloridas que arrastavam os jovens sobre uma pequena prancha. Olhava as belas meninas em trajes diminutos desfilarem. Impressionava-se como a juventude de hoje era desinibida. Assistia aos abraços e beijos calientes dos enamorados. Sentia saudade dos abraços fortes e dos arrepios do amor.

A noite finalmente foi chegando e a hora de retornar também. Já em casa, tomou um demorado banho. Após se vestir, pensou em ligar para os filhos. Mas, certamente, estariam, ainda, presos no trânsito, cansados e sem tempo para perder com a velha mãe desocupada. Resolveu comer uma sopinha no jantar. Sorveu sua porção lentamente. Olhava o relógio, mas não era a hora do jornal ainda. Impresionava-se como o tempo parecia parar, quando antes a ampulheta da vida pareceu se esvair tão rapidamente. Enfim, o jornal com as mesmas notícias. Depois, a novela com a mesma história.

Preparou-se para se deitar. Vestiu o velho e amado pijama de seda. Sentou-se à mesinha de estudo em seu quarto, abriu a Bíblia e começou a ler. Às dez em ponto, leu o último versículo:

- O Pai ama o Filho, e todas as coisas entregou nas suas mãos. (João 3:35)

Beijou seu crucifixo. Orou com as mãos sobre a Bíblia. Abriu um pequeno pote e despejou o cianureto sobre o copo d`água. Suspirou profundamente e bebeu. Enfim, Dona Penha se deitou em busca de uma nova vida, fosse ela eterna ou não. Enquanto ela não vinha, olhava atentamente para o relógio.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O TEMPO POR X e Y*

*para quem se admira com os mistérios da ampulheta da vida


X: - Você já parou para pensar sobre o tempo?
Y: - Bem... Já. Afinal, quem não? Queria ter o tempo em minhas mãos.
X: - Estava pensando acerca do tempo perdido. Daquilo que poderia ter feito...
Y: - Tempo perdido?!
X: - Sim. Pense na seguinte hipótese: se o tempo perdido pudesse ser encontrado o que ele diria?
Y: - Nada, acho. Ou poderia agradecer ser encontrado. Talvez, falasse de onde estava. Mas onde será que estaria ele?
X: - Perdido! Em algum lugar no passado.
Y: - Visto assim, trata-se, sem dúvida, de um sujeito cabeça dura!
X: - Quem? Eu? O tempo perdido? Ou o passado?
Y: - O passado. Ele se vai sempre e nunca volta. Ficam todos relembrando dele, nostálgicos... As oportunidades que nele se perderam.
X: - Mas, pelo menos, há o presente, aqui, conosco. Sabe de uma coisa? Popular é o futuro! Todos falam dele no presente, e sempre falaram no passado.
Y: - Verdade. Mas o futuro é muito ingrato.
X: - Ingrato? Por que?
Y: - Nunca aparece... Nada sabemos ou temos certeza dele. Portanto, é tudo mera especulação. É impossível dominar o acaso.
X: - Nunca tinha pensado nisso. Mas entendo... Ficamos, aqui, sonhando cheios de esperança... Acho que a resposta é “ter fé”!
Y: - E quem não tiver fé? Eu não tenho fé alguma.
X: - Estará condenado a vagar perdido no tempo. Será sua sina, amigo.
Y: - Coitado de mim, perdido no tempo que pode está perdido no passado...
X: - Mas sempre há o presente. Apenas ele pode nos ajudar.
Y: - De fato, temos apenas o presente! O passado está perdido e o futuro é incerto!

domingo, 23 de maio de 2010

SOLIDARIEDADE

Alfredo era um cara conflituoso. Namoro em crise, farras prosperando. Na verdade, parecia, sempre, imune aos abatimentos, tristeza, decepções e demais mazelas do coração. Era sexta-feira e a namorada ligara com aquele ar fúnebre: “Precisamos conversar...” Nestes instantes, a percepção masculina capta o odor típico da propagação da combustão do pavio. Em outros termos, é bomba chiando na certa!

Chegou à casa da amada por volta das 21:00 horas. Sentou-se... e o resto veio em cascata. Você isso! Você aquilo! Você isso naquele dia! Você aquilo no centésimo quarto dia de namoro... Até Alfredo, que era calmo, explodiu. Pediu a sentença com dispensa de relatório. E lá veio: “Isto Posto, julgo extinta nossa relação sem direito à apelação”. Alfredo renunciou a qualquer recurso, e ligou para os amigos, e, logo, encontraram-se no bar de costume: o Jam Pub.

Lá, relatou o ocorrido, e, obviamente, recebeu, regada a cerveja, toda a solidariedade dos amigos. Paulo era o mais legal, disse tudo que um homem quer ouvir nestes instantes de abandono.

- Você é um cara legal, Alfredo. Liga não! Mulher tá feito cotovelo em feira, uma batendo na outra...

Alfredo respirou e bebeu, depois, bebeu mais. Estava novo. Estava livre, solto, uma quase-libélula, pensou. Mas logo corrigiu, também em pensamento:
- Que viadagem, libélula que nada! Sou um carcará e vou caçar.

Olhou para os lados, a galera tava animada, a banda tocava System of a down, Chop Suey. De repente, a sorte soprou de seu lado. Lá estava Natasha. Ela era linda, um corpo daqueles que nenhum homem resiste olhar e que muitos acham que não dá para pegar. Ela dançava, próxima ao balcão muito animada e sozinha. Um copo na mão, um cigarro na outra. Então, ela soltou o copo no balcão e sorriu para Alfredo, que a olhava fixamente. Ele se aproximou, apresentou-se, beijaram-se na face, conversaram amenidades. Logo, já estavam dançando, quando o beijo lascivo veio, sem origem precisa, afinal ambos queriam aplacar a atração que sentiam.

Alfredo nem sabe quanto tempo passaram se beijando, eram sessões ininterruptas. Só havia espaço para um trago, ou mais um gole, fora isso, no máximo, um cochicho rápido com algum amigo que passava. Acontece que Natasha, explicitamente, passou a declarar-se inconformada com a hipótese de ir para casa às quatro da manhã. Por estas alturas, Alfredo já não era um exemplo de raciocínio rápido e lógico, e largou a proposta indecente:

- Vamos para um local mais reservado, porém não menos animado? Pode ser?

Natasha, com a língua furtiva entre os dentes, e em contato com a orelha dele apenas respondeu:

- Pode. Por que não? Basta dizer onde, que vamos agora...

Alfredo então passou a ter dois problemas. O primeiro era: Para onde ir? Mulheres sempre são imprevisíveis, e motel na primeira noite é sempre um risco de fiasco. O segundo era como ir. Não estava de carro. Ainda buscando as respostas que precisava, ele avistou Paulo, o amigo legal.

Paulo estava em pé, mas ameaçava mudar de posição, rapidamente. Os corrimões do bar eram uma idéia fantástica, além de uma utilidade latente. Alfredo falou com Natasha, pegou Paulo, e foram os três pro estacionamento. Paulo mesmo com problemas visíveis de áudio e imagem, observou Natasha e elogiou o amigo na frente da menina:

- Filho da Puta! Que mulher é essa, meu irmão? Ela num tem uma amiga igual a ela? Uma irmã? Gêmea talvez?

Todos riram, e ele desabou no banco de trás do carro. Alfredo levou Paulo para seu apartamento e, com a ajuda de Natasha, o jogou na cama. Graças a ela, Paulo não dormiu de sapatos e ainda bebeu um copo de água providencial.

Missão fraternal cumprida. Alfredo caminhava para a porta do Apartamento quando Natasha o puxou. Ainda no primeiro beijo, caíram sobre o sofá, e deste para o chão. Em minutos, estavam nus no carpete da sala, ao som de um DVD de Pearl Jam. Alfredo não sabia quanto tempo tinha ficado dedicado as acrobacias de alcova. Mas percebeu, ao som de Better Man, Paulo, observando tudo. Paulo estava semidespido, só usava cueca, olhava tudo sorrateiramente. Seus olhos centilhavam um misto de desejo e satisfação. Alfredo, sem que Natasha percebesse, a afastou para que ela não pudesse observar Paulo e nada mais fez, além do que já fazia: preencher os espaços que Natasha lhe oferecia.

Na manhã seguinte, os três tomaram café juntos. Entre gargalhadas e olhares, Paulo não tirava os olhos de Natasha e da forma como ela bebia o iogurte. Alfredo só sorria solidariamente...

domingo, 9 de maio de 2010

O GARFO DE PRATA

Marcos Mota era o típico acadêmico brasileiro. Dedicado, cheio de cultura, mas com pouco dinheiro. Professor da UFCG sua maior satisfação era ministrar palestras pelo Brasil. E, ultimamente, após o seu pós-doutoramento estava sendo convidado para eventos internacionais. Infelizmente não participava de todos. Aliás, poucos conseguiam ir devido a falta de recursos da universidade. Mas apesar dos pesares, lá estava Marcos, em Paris, França! Que maravilha! Sua ansiedade era tanta que quando caminhou pela Champs-Élysées foi invadido por uma sensação indescritível de realização. Além de toda a magia da terra de Napoleão, Rousseau, e Sartre, era sua primeira publicação de trabalho na França. Quem haveria de ficar ileso a tanta novidade?

O congresso era uma beleza. Luxo, pompa, tradição e elegância marcavam o evento. A apresentação de Marcos foi muito aplaudida, só se arrependeu de nunca ter estudado Francês, mas o Inglês foi amenizado com várias inserções simpáticas de expressões francesas, com o intuito de fazer o metier.

Enfim, chegara a última noite em Paris. Como despedida resolveu jantar num bom restaurante. Foi ao Alain Ducasse, restaurante situado no Plaza Athénée. Lá, pediu um escargot au vin. O recinto possuia uma excelente decoração, todo o local tinha um charme único. Porém, algo chamou a atenção de Marcos como nada antes. Ele estava maravilhado com os talheres. Um prateado inigualável, fantastique! Foi quando decidiu levar uma lembrançinha especial de Paris. Pensou em pegar o garfo e a faca, mas a faca poderia dar problema na alfândega, com toda essa paranóia de terrorismo. Por isso, foi no garfo com força.

Devagarzinho, envolveu o talher escolhido com sua mão esquerda e o guardou no bolso. Este ato durou um único segundo, mas em sua mente foi planejado nos mínimos detalhes. Ao terminar a refeição, solicitou a conta, nem olhou seu valor, não importava. Seu objetivo era outro: um pedaço de Paris. Quando o garçom retornou com o seu cartão de crédito, Marcos agradeceu, guardou o cartão, e levantou. Cada passo até a porta custava-lhe um esforço colossal. E numa progressão geométrica a culpa ia tomando conta de sua consciência. Rapidamente mentalizou uma manchete na Folha ou no Estadão “Paraibano preso por roubo na França!”. No Correio da Paraíba e no Jornal da Paraíba seria capa, sem a mais mínima dúvida. Suava frio, latejava sua pulsação sangüínea. Neste instante, foi tocado no ombro... Segurou um grito denunciador, mas um tremelique foi inevitável. Era um garçom lhe avisando que a porta que estava prestes a ingressar era da cozinha e não a da saída. Marcos, agradeceu, com um trêmulo «Merci!» Virou-se e caminhou na outra direção.

Contudo o medo aguçara sua visão periférica e percebera o garçom que acabara de alertá-lo, estava conversando com um segurança. O frio correu-lhe pela espinha imediatamente. Estava perdido. Sem hesitar ingressou no banheiro. Numa pane orgânica, seu intestino lhe traiu de forma impiedosa. Exausto, e culpado resolveu encarar a sorte. Devolver o talher seria um ato covarde, e Marcos era um homem de fibra. Respirou fundo, saiu do banheiro em marcha. Imaginou como fundo musical o hino francês, La Marseillaise. Perto da saída encarou o recepcionista do restaurante, mergulhou, por seus olhos, n`alma do indivíduo, este prontamente abriu a porta por onde Marcos atravessou triunfante.

Ao chegar no hotel, estava embevecido pela sua coragem. Retirou o magnífico troféu do bolso. Passou a admirá-lo, lentamente, prazerosamente. Quando, então, uma pequena inscrição no talher retirou-lhe a glória. Lá estava, não devia, mas estava: “Made in Brazil”. Marcos roubara sua pátria.

domingo, 2 de maio de 2010

A CURANDEIRA

Mônica Barros era do tipo “mulher que pode”. Tinha status e independência financeira e se orgulhava disso. Na verdade, desde a escola ela era admirada pelo desempenho e postura madura que patrocinava. Seu codinome entre as coleguinhas era «N & N», pois conseguia conciliar notas & namoros. Quando Mônica foi aprovada no vestibular, para o curso de medicina da UFPB, tratou de acabar o namoro do momento, pois, naquele instante, entendia ter a obrigação de estudar de “verdade”.

Na universidade, ela se destacou pela dedicação às disciplinas o que ecoou numa admiração geral de todos os alunos, professores e funcionários, além de resultar numa excelente média geral. De fato, Mônica detinha a maior média de sua classe. Ao final do curso, fora eleita oradora de sua turma e ganhou uma medalha de honra ao mérito do Centro de Ciências da Saúde. Mal se formara médica já fora aprovada no Programa de Saúde da Família (PSF), que conciliou enquanto pôde com a residência em dermatologia. Foram anos de muito trabalho, muito aprendizado e poucos namoros, na verdade, nenhum que se possa creditar como sério.

Enfim, os anos de cumulação do PSF e plantões, em hospitais privados e públicos, possibilitaram reservas econômicas, que unidas a algum capital paterno realizaram o sonho de sua própria clínica de dermatologia. Mônica fora um caso típico de sucesso fruto de competência e sagacidade. Em sua mente, o sucesso era uma questão de tempo e vinha com absoluto merecimento.

Aos 35 anos estava no auge profissional. Clínica estabilizada, pacientes numerosos e satisfeitos com o atendimento e atenção que Mônica os oferecia. Em verdade, destacava-se o alto grau de informatização de sua clínica e os recursos humanos de alta capacitação. Tudo, obviamente, sob a tutela da médica chefe e, também, diretora geral: Mônica Barros.

Justamente, na época que atingira o ápice profissional, inclusive com o seu doutoramento acadêmico pela USP, algo parecia faltar-lhe. Uma náusea tomava conta de sua alma. De alguma maneira, sua existência estava questionada. A dúvida nunca tinha feito parte de sua vida, mas parecia se alojar velozmente em sua vida.

Nada mais havia o que galgar na medicina. Seu mundo passara a ser deforme e volátil, não mais tinha a firmeza de ações como outrora. Toda esta ebulição questionadora de sua vida trouxe-lhe um sentimento de inutilidade, de infertilidade, e esterilidade. Dentro de sua racionalidade Mônica diagnosticou o problema como “desejo inconsciente de maternidade”. Ocorre que, logo, tal desejo inconsciente transformou-se em consciência. Neste período (trinta e oito anos e solteira) constatou que sua vida afetiva fora nula, ou melhor, anulada. Resumia-se a casos esporádicos e de pouca durabilidade. Lembrou-se de Paulo talvez o mais sério envolvimento que se permitiu. Mas concluiu que tudo que construíram juntos foram alguns momentos de agasalho sobre a fria maca hospitalar em plantões entediantes. Paulo passou, estava até casado e, já fazia tempo. A vida passara e Mônica ocupada ou concentrada demais não percebera.

À busca da maternidade, então, ela se entregou. Seria a cura da sua patologia espiritual. “Havia tempo”, pensava. Ocorre que esta ânsia de maternidade afastava os homens que se envolvia. A cronologia natural dos relacionamentos não mais lhe apetecia. Não podia se dar ao luxo de uma história completa de amor, com início, meio e fim. Em sua convicção, só o meio para o fim interessava.

Sem poder mais esperar pelo acaso, ou qualquer outro curso natural dos acontecimentos, restou para Mônica a inseminação artificial. Foi justamente deitada na maca da clínica de inseminação que aceitou os fatos. Como uma curandeira, aprendeu todos os elixires contra os males físicos, os ensinamentos que sua cultura propiciava. Como uma curandeira, teve fé em tudo o que fez. Como uma curandeira, dedicou-se à tribo e esqueceu-se de si. Curou muitos dos perigos da vida, e, naquele instante, durante a cópula esterilizada, precisa e autômata, pôde diagnosticar que viveu doente sem amor.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A UNHA

Anselmo não era muito adepto a fidelidade. Na verdade, segundo ele a culpa era o assédio. Aos vinte e três anos, era o que podia se chamar de detentor de um porte atlético. Seu queixo de cavalo, bíceps trabalhados, olhos puxados e uma atitude arrojada funcionava bem com as mulheres. Era inegável que Anselmo se enquadrava naquele tipo de cara que, quando chega, atiça o mulherio do recinto. E foi no auge de sua forma e fama que ele conheceu Amanda.

Amanda era manicure do salão que Anselmo freqüentava. Afinal, o macho pós-moderno faz unhas e culpa a higiene. Ele sempre esperava a fila andar, mas não abria mão da habilidade de Amanda. Morena, olhos verdes amendoados, corpo de princesa, e um sorriso de mulher que sabe das coisas. Anselmo se esforçava para convencê-la a aceitar um passeio, mas ao fim aquela voz adocicada e provocante sempre dizia “Não, meu bem” ou “Não posso hoje, infelizmente!”...

As investidas semanais continuaram infrutíferas, por meses. Anselmo, então, resolveu radicalizar, idealizou uma tática kamikaze. Passou a levar sua namorada ao salão onde Amanda trabalhava. Enquanto a namorada se entregava as máquinas do salão, Anselmo investia:

- Linda ela, não? Mas eu a trocaria por você e ainda pagaria troco!
Amanda indignada rebatia:
- Você é mesmo um cafajeste...Repugnante isso...
Ele respondia:
- Cafajeste não! Sou canalha! E dos bons! Ouviste, Mandinha?
Anselmo não desistia. Continuou levando a namorada. Até que, ao fim de dois meses, as coisas mudaram de figura. Naquele dia Anselmo falou:
- Sonhei com você. Foi ontem, Amanda... Sabe o que acontecia?
Amanda tentou repelir:
- Não me diga! Ou conto para ela agora e aqui.
Anselmo blefou magistralmente:
- Vai em frente... Conta... Agora conta tudo que te disse... tudinho... hoje e sempre...
Amanda respondeu:
- Você é mesmo um canalha. – Neste momento ela arrebentou um pedaço da unha de Anselmo que engoliu um grito heróico – Pior que é um canalha muito charmoso. Quer mesmo me ver?
Ainda entre a dor da unha e a surpresa da pergunta, Anselmo balançou positivamente a cabeça, com os olhos lacrimejando de dor. Amanda arrematou:
– Pois bem, próxima semana vem sozinho, acaba com ela. Ouviu!?

Na semana seguinte, lá estava Anselmo, não acabou o namoro só por segurança. Esperou até o último cliente da tarde e acompanhou Amanda. A noite foi inesquecível. Amanda era uma tsunami de erotismo e prazer. No dia seguinte, o Anselmo era um ex-galinha. Acabou o namoro e correu para os braços de sua nova amada. Assim, eles começaram um romance tórrido.

Não havia hora, nem lugar. A fómula era simples. Anselmo + Amanda = Sexo + Amor + Desejo. O que parecia loucura, resultou em casamento. Os amigos dele não podiam crer no que se passava e na velocidade em que tudo aconteceu. Foram só dois meses de namoro! O atlético mulherengo, de antes, vivia cansado e mancando, mas extremamente feliz. Aquela unha bendita nunca mais deixaria de encravar. E por mais que ele solicitasse a Amanda que interviesse em sua sina calista, o encrave resistia.

O certo é que sua bela e fogosa esposa, misteriosamente, nunca solucionaria o problema. Porém, nos momentos íntimos e tórridos, Amanda lambia o dedo penitenciado, vagarosamente. Numa assepsia caliente, sem qualquer pudor ou receio, além de alheia ao riscos bacteriológicos e fúngicos, ela entregava sua alma pela ponta da língua. Noutro norte, o castigado amante, no prazer do alívio, estava, cada vez mais, loucamente apaixonado.

quarta-feira, 24 de março de 2010

E-HOMEM

Na era da cibernética, somos dados em data banks. Embora seja inevitável a lembrança de Einstein quando afirmara que “Deus não joga dados!”. O mundo nos conhece e nos controla. Não era diferente com Júlio, mas o Júlio era diferente, isso sim, com certeza. Não que não tivesse capacidade de se adaptar as mudanças impostas pela sociedade contemporânea. Em verdade, tinha sim, tanto que era um solteirão convicto. Mas, não sentia apelo para esta adequação digital, o que, de certa forma, o deixava a margem do processo de informatização do mundo. Mas a empresa que trabalhava não queria perder o bonde da história e passou a perseguir a alcunha de “moderna”. Afinal, vivemos a era do «.com».

Neste novo paradigma de administração, todos os funcionários de escritório ganharam acesso a internet e um e-mail próprio na empresa. Júlio, pouco afeito a esta tecnologia, demorou quase um mês para apreender a enviar os relatórios via e-mail para a presidência da empresa. E esta habilidade custou-lhe a fama de “e-xpert”. No cafézinho, quando passava por perto, alguém logo falava:

- Dr. E-xpert! E aí? Já aprendeu a ligar o notebook?

Os seus colegas de trabalho resolveram tirar uma onda com Júlio. Cadastraram o e-mail dele num site chamado E-ncontro. Trava-se de um site de busca de companheiros e de encontros em geral. Dentre uma gama variada de serviços, era ofertado o serviço de amizade virtual. Onde após o preenchimento de um cadastro de perfil a própria empresa “criava” um AVP - amigo virtual pessoal. O pobre do Júlio foi uma vítima mais que frágil, na verdade indefensável. Passou meses de namoro, diga-se de passagem, dos bons(!), com uma namorada virtual. O nome dela: Nara. Foram meses até o primeiro beijo, e mais alguns para uma relação mais virtualmente sexuada. Ao final, Júlio não tinha dúvidas, Nara era a melhor experiência sexual que tivera, niguém poderia superá-la no teclado. E na cama?! Bem, de que importava?! Para Júlio a tela de seu notebook se tornara a alcova mais inebriante que a vida lhe permitira acesso. Nara era a senhora de seus olhos e ouvidos, provedora de seus arrepios mais espetaculares.

Júlio estava apaixonado, falara, até, em casamento para os mais próximos. Isso se Nara se decidisse pela materialização da relação. O problema era que, para Júlio, Nara era sua alma gêmea. A piada se tornou, cada vez mais, sem graça. Como na canção do Bee Gees:

"I started a joke
Which started the whole world crying

But I didn't see

That the joke was on me"

Os colegas não tinham mais coragem de assumir a peça que pregavam em Julio. Tornaram-se reféns da fábula que arquiteram. Sentiam uma pena profunda por Júlio, ao passo que se auto repugnavam pela diabólica situação a que se submeteram. Acabaram por decidir contar tudo. Em uma carta anônima, detalharam, passo a passo, a fria biografia inescrupulosa de Nara. Neste triste momento, os “colegas” de trabalho revelaram o sórdido joguete, destruindo a humanidade de Nara. Era o fim de algo inexistente, mas, inexplicavelmente, presente na vida do Júlio. Na verdade, Nara estava totalmente incorporada a sua rotina, fazia parte do seu dia e, principalmente, de sua noite.

Traído pela tecnologia que ignorava, mas compensado pelo amor que encontrara, Júlio prosseguiu os contatos. Não importava quem fosse Nara. Passou a adimplir a mensalidade, antes paga pelos colegas de trabalho. Sentia-se como um pai de família provedor. Na verdade, tudo funcionava de forma simples em sua mente. Simples assim: Era Nara e bastava. Era alguém importante que se importava com ele. E este carinho virtual era seu, ou melhor deles, de Júlio e Nara. Ao fim de cada entrega, ele sempre a imaginava exausta, procurando a carteira de cigarros, ainda, trôpega. Para, logo em seguida, desfrutar de cada tragada, revivendo a lascívia de Júlio.

Não sabemos bem como anda a relação de amor de Júlio. Mas que ele amou, amou, e, assim, fez estória. A partir de então passamos a compreender que, em verdade, no mundo global da informação instantânea e digital, somos todos códigos compostos de elementos diversos, escravos de combinações aleatórias, cujas senhas pertencem ao acaso. Sorte de Júlio que, como tão poucos, na sofreguidão do rush cibernético cotidiano, encontrou um amor verdadeiro.

sábado, 13 de março de 2010

O ESPASMO

Martinho era um namorado exemplar. Daqueles que as mulheres quando ouvem notícia sentenciam: «Queria um assim!» Marlene tinha ciência disto, e zelava por seu noivo com todo carinho do mundo. Constantemente, confidenciava com sua mãe e amigas os gestos nobres do noivo, seus galanteios e, principalmente, o respeito que Martinho a tratava.

A verdade é que Martinho merecia sua fama. Sempre de bem com a vida, tinha uma filosofia um tanto sui generis quanto aos relacionamentos amorosos. Costumava dizer que:

- Relacionamento quem faz são os relacionados. Nada mais que isso. Aliás, só isso, e pronto!

Por isso, evitava bebedeiras e, mais ainda, qualquer contato próximo com mulheres. Seus amigos zombavam, mas no fundo todos invejavam a capacidade de Martinho de driblar as oportunidades perigosas. Se ia ao racha de futebol, acompanhava os amigos até a cervejaria, mas após o primeiro, ou no máximo segundo gole, saltava da cadeira e:

- Vou nessa! A Marlene me espera... E mulher como ela não existe!

Realmente, Marlene era linda. E tinha um corpo inacreditável. Centímetro por centímetro, poderia ser inspecionado sem qualquer imperfeição. Uma deusa grega, no Olimpo de Martinho.
Certa vez, no trabalho, uma colega lhe convidou para tomar um chope para aliviar o estresse. E olha, que essa colega não era qualquer uma não, era, simplesmente, a Lívia Campos, sobrinha do governador. Todos da empresa diziam que ela estava na do Martinho. Mas ele, no dia do convite, a chamou para um canto de parede e soltou:

- Olha só Lívia, eu sou Noivo! Entendes? E não posso tá aliviando estresse por aí! Ok? Ou devo chamar a Marlene?

A pobre Lívia, renegada dessa maneira, nunca mais ousou dirigir-lhe qualquer convite ou insinuação.

Certo dia, Martinho recebeu a ligação que o marcaria. Uma voz feminina rouca e lânguida. O impulso inicial foi destratar a oferecida, mas aquela voz não merecia desprezo. Pelo contrário! Era uma voz atrativa, daquelas que soam como verdadeira melodia aos feromônios. Uma voz de sereia, cujo prazer de audição enlouquece e fascina. Enfim, Martinho sentenciou que a voz merecia ser melhor e mais ouvida. No entanto, Martinho avisou logo:
- Sou noivo! Ouvistes?!

No entanto a reposta foi um simples:

- Eu sei... e não me importo. Simplemente, não ligo! E te dido mais, não tenho interesse algum em acabar seu noivado com a Lene...

Desde então, Martinho era tentado dia e noite. Recebia ligações com elogios. Mensagens anônimas no celular. O que mais lhe intrigava era que a interlocutora anônima de certa forma lhe policiava os passos. Neste mistério, permaneceu por meses. Até que aquela bela voz o convidou para um encontro. Martinho relutou, mas aceitou. O encontro fora marcado...

Martinho chegou no centro da cidade, e, de frente à pousada que combinou, utilizou um orelhão para ligar para Marlene, certificando-se que a mesma encontrava-se na faculdade. Respirou fundo e lentamente, tentando controlar seus batimentos cardíacos. Olhou o dizer luminoso com o nome do estabelecimento de hospedagem e adentrou em suas dependências. Procurou o corredor que levava aos quartos, seguiu até o quarto 130. Olhou a maçaneta atentamente, agarrou-lhe e suavemente abriu a porta. Lá estava...

Helena! Ou melhor, Dona Henlena, sua sogra! Em uma convulsão inebriante sua vida fora devassada por si próprio, numa espécie de retrospectiva íntima e não autorizada. Lembrava de Marlene. De Seu Bento, um homem tão bom... Mas a realidade era patente e estava literalmente desnuda em sua frente. Ou melhor, estava apenas com um belo vestido branco e decotado nas costas, sem qualquer lingerie, um anjo tentador e lascivo. E neste mar revolto de conflito e aflição não podia deixar de reconhecer a esplendorosa forma de Helena. Como pudera nunca desejar a D. Helena?

Naquele instante, Helena deslizou pelo carpete se aproximando de Martinho. Pegou-lhe a mão e o conduziu até a beira da cama. Abriu-lhe a camisa e o acaríciou, enquanto se aproximava. Depois, tirou-lhe a camisa, o cinto, os sapatos. Beijou-lhe o abdômen. Levantou e retirou o vestido, abraçando-o com força. Foi quando, consumado pela culpa e pelo desejo, ao ser tocado, levemente, por Helena, que com as pontas dos dedos do pé percorreu-lhe a perna, Martinho tentou falar. Tentou ainda explicar-se. Tentou ao menos agarrá-la, mas um espasmo o derrubou. Um espasmo cruel expulsara sua virilidade e todo seu desejo. Uma erupção de sementes que tornou-lhe um deserto sem vida. Sentiu-se humilhado, e se recolhera ao chão, encolhendo-se como um feto. Helena insistiu com beijos em sua face, mas Martinho já não estava lá. Desiludida Helena o deixou inerte no solo.

No Domingo, todos se reencontraram, quando sentados a mesa, com toda a família reunida, marcaram e celebraram o casamento de Marlene e Martinho.
 
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