domingo, 18 de julho de 2010

O DIGNÍSSIMO

O dia começou acelerado para ele. Hoje era o grande dia. Finalmente, ele iria encontrar Alice. Alan era um cara bonito, alto, bom papo, extrovertido. A questão era: Alice não era sua namorada. Sua namorada era Paula. Paula, por sua vez, era linda. Realmente era de uma beleza angelical, detentora daqueles rostos instactos, imaculados, que só as meninas mais santas podem ter. Paula era para casar! Mas, Alice era uma coisa! Uma coisa diferente, mas uma coisa... Alice era para se pegar. Assim, Alan estava decidido: pegar Alice, casar com Paula.

O nó górdio era que Alice não sabia de Paula. Obviamente, a recíproca deveria ser necessariamente verdadeira. Por isso, Alan ligou, logo cedo, para Paula:

- Amor, o dia tá uma correria! Vou tentar acabar tudo para nos vermos a noite! Como você está? Tudo bem? Que bom...

No início da noite, Alan ligou para Alice e combinou de se encontrar com ela num bar. Disse que iria logo após um jantar de família, aniversário de um primo querido. Sabe como é... Em seguida, ligou para Paula:

- Paixão, vou chegar cedo, hoje, aí! Tou cansado. Senão acabo dormindo, ok? E quero muito lhe ver! Beijo, amo demais!

Alan chegou em tempo para sentar-se à mesa durante o jantar. Comeu muito, dizia-se faminto. Paula, sempre mimando-o oferecia um pãozinho, uma sopinha, etc. Logo após a ceia, foram para a sala, quando o telefone dele toca. Ele olha o visor e não atende. Paula observou tudo, mas acabou preferindo não se manifestar. Eles sentam-se ao sofá e trocam os primeiros beijos, quando, então, o telefone vibra na calça de Alan. Ele não atende. Com poucos minutos, ele se levanta e vai ao banheiro. Paula resolve segui-lo e quando se aproxima do corredor, na frente do banheiro, Alan, ainda no telefone, emposta a voz e fala:

- Poxa, Jack! Vou nada cara! Tou mortinho vou dormir cedo hoje! Beleza? Vou indo.

Jack era o irmão de Alan. Nesse momento, Paula caminhou até o seu digníssimo namorado, deu-lhe um beijo na face e disse:

- Meu bem, você tá cansadinho, né?! Então vou lá pro quarto que também quero deitar cedo hoje.

Então Alan respondeu:



- Já meu docinho!? Tudo bem... Vou conversar com seu pai, no terraço, depois vou lá me despedir de você.

Ela para o quarto, ele para o terraço. Alan, então, ligou para Alice reforçando o encontro. Falava baixinho. Enquanto isso Paula estava no MSN, puta da vida. Sabia que estava sendo enganada, mas não sabia o que fazer. De repente, «José Acaba de iniciar sessão». José era um colega de academia. Bichozinho perigoso esse. Ela o achava lindo e gente boa, além disso, ele sempre a seguia com os olhos pelo maquinário durante os exercícios. Outro dia, Alan discutiu com ela a razão dele estar adicionado ao MSN de sua amada. Foi uma briga feia, depois nem ela sabia o porquê de ter defendido a adição dele ao seu rol de amigos. Enfim, José começou logo a conversa:

José diz: Boa noite! Como vai a princesa mais bela do Reino?
Paula diz: Boa noite J
José diz: O que você faz aqui essa hora? Namorando não?
Paula diz: Fui abandonada!
José diz: Que pecado! Eu num faria isso.
Paula diz: Não? Faria o que?
José diz: Eu estaria ao seu lado, o mais próximo que fosse possível, que vc deixasse tb lógico
Paula diz: hummmm parece interessante
José diz: seria sim
Paula diz: Mas isso num é possível. Essa aproximação.
José diz: é sim, liga a cam

Paula ligou a webcam e deu um sorriso malicioso que contrastava com sua face angelical. A conversa, então, continuou por um bom tempo, até aqui:

José diz: Vc é muito...
Paula diz: o q?
José diz: linda! E tb outras coisas
Paula diz: vc acha?
José diz: acho e faz tempo, vc sabe disso
Paula diz: sei sim tb acho vc bem interessante
José diz: é?
Paula diz: é, esse seu corpo é bem forte
José diz: isso num vale eu aqui só de short, vc aí embalada na cama. Isso é lençol né?
Paula diz: rsrsrss é sim, mas vc acha que posso me livrar deles?
José diz: demorou gatinha
Nesse momento, enquanto Alan camuflava as ligações em que arquitetava o seu álibi, sua namorada se despia de forma ardente defronte a tela do laptop. Sua beleza invadia o monitor de José que em êxtase manipulava sua masculinidade. O digníssimo ao telefone, ela na webcam, José na mão e a Alice, a outra, sussurrando por companhia. Nessa algaravia frenética e sexual... José tinha tudo. Tinha o corpo lindo de Paula com seu rosto angelical transformado. Seus seios rígidos e firmes. O corpo de Paula era dotado de curvas únicas. Tratava-se de uma sinuosidade afrodisíaca. Seus segredos tão bem cuidados, eram um convite ao amor. José via, não cria, mas queria. Sua carne transpirava, por seus poros escorria o desejo de ali estar entre os lençois do anjo Paula. Pensava em se jogar na tela, só para ter o prazer de sentir a imersão naquele ambiente, que exposto estava na sua bendita frente. Nesse momento, o digníssimo bate à porta. Paula fecha o notebook e veste a primeira roupa que encontra. Abre a porta e fala:

- Oi amor! Já vai?

Alan responde com aquela atuação digna de um Oscar:

- Tenho que ir. Tou morto. Beijinho.

Assim, Alan encontrou Alice. Os dois ficaram algumas vezes, mas logo ela percebeu o seu jogo e nada mais rolou. Paula se entregou a José, primeiro virtualmente, depois teve a dignidade de se entregar pessoalmente de cabeça erguida e sem dúvidas. Até que chegou o dia em que Paula deixou Alan e José foi elevado aos céus, na condição de digníssimo namorado do anjo.

terça-feira, 6 de julho de 2010

NADA

Alberto era o caçula da família de três irmãos. Seus irmãos sempre foram fortes e atléticos, mas Alberto não. Na verdade, Alberto, apesar de não se dedicar a qualquer esporte, tinha uma estrutura física avantajada. Fazia questão de dizer: "Tudo natural! Sem malhação nenhuma! só o dedinho de Deus.". Por ser o caçula, Alberto sempre foi protegido e isto acabou afetando-lhe a personalidade. Talvez por não ter resolvido boa parte das broncas que patrocinara na adolescência, Alberto tornou-se um namorado altamente ciumento e machista. Azar da Ana.

Ana reclamava, mas, no fundo, gostava do ciúme excessivo de Alberto. O estilo dele - “homem brabo do sertão” - tinha lá seu charme. Porém, Alberto, vez por outra, mandava ela se calar na frente dos outros. O ato machista e agressor encontrava em Ana apenas obediência. Assim, do namoro para o noivado foi um pulo. O casamento chegou tão rápido quanto. Festa linda, com um certo requinte. Ana muito feliz. Alberto meio incomodado com tanta “cerimônia”, mas cumpriu seu papel. Aguentou as infinitas fotos. Depois, concluiu que não sorriria mais durante meses, o estoque havia esgotado.
A vida de casado ia bem entre os dois. Alberto não era farrista, era do tipo que bebe domingo, mas só em casa com os amigos e a família, sem badalações. Ana, até que gostava de um movimento, mas abdicara, conscientemente, desta predileção no “sim” do casamento. Alberto gostava mesmo era de receber os irmãos, os cunhados, seus pais e sogros em casa. Comer bem, beber melhor ainda, e jogar conversa fora enquanto as mulheres lavavam a louça.

No entanto, apesar de toda essa vida pacata que levava, Alberto fazia questão de demonstrar seu ciúme. Certa vez, por exemplo, proibiu Ana de comprar qualquer coisa na padaria do bairro, pois cismara que o padeiro “estava sorridente demais” para sua esposa. Ana ficava revoltada, mas se submetia. Porém, Alberto tinha uma grande qualidade, era atencioso com sua família. Não deixava de cumprir com os compromissos familiares, enfim muito trabalhador. E mesmo, na vida puxada de engenheiro civil de uma grande construtora pessoense, fazia questão de pegar e levar as crianças no colégio.

O espírito agitado do varão afetava-lhe o sono, que acabava por ser leve. Facilmente, despertava a qualquer sinal de barulho. Muitas e muitas noites, acordava, na madrugada, achando ouvir algum barulho estranho nos arredores da casa. Por vezes, eram gatos em coito, naquela algarraza felina que parece violenta, mas sem a qual não haveria os amados gatinhos. Outros barulhos não eram identificados. Essas ocorrências acabaram por se tornar rotina. Alberto acabava por aproveitar-se da situação e fazer uma média com Ana. Perguntava:

- Você ouviu? - mesmo sem ter certeza se ouvira.
Ana respondia assustada:
- Não! O que?!
E Alberto aplicava o golpe:
- Vou ver! Reze para não ser nada, pois se pego um marginal aqui... eu mato!
Ana ficava apreensiva, até o retorno do amado. Alberto de forma segura e enfática pronunciava:
- Não era nada, Amor. Venha mais para cá, venha...
Ana tinha motivos para sua apreensão, pois em poucos anos a vizinhança se modificara, de um lugar calmo e tranqüilo, para um ponto perigoso. Ocorre que, certa noite, Alberto acordou com um barulho realmente. Eram passadas no jardim. Pensou no que fazer, mas um frio percorreu-lhe a espinha, um suor gélido inundava a testa. O pior que as passadas eram intercaladas com barulhos outros. Ana acabou por acordar. E disse:
- Amor! Tem alguém lá fora!
Alberto, após uma certa pausa, respondeu:

- Não é nada, Ana.
Ana, no entanto, retrucou:
- Você não está ouvindo!? Tem alguém lá fora! No quintal!
Alberto, então, segurou-lhe o rosto com as duas mãos e repetiu lentamente:
- Não é nada Ana! Nada! Entendeu!?
No dia seguinte Alberto sentira falta dos sapatos que colocara para secar após engraxá-los. Ana, também, sentira falta das roupas que estavam no varal, mas nem chegara a comentar com Alberto. Na verdade manchas de pés no muro do quintal falavam por si próprias. No final de semana seguinte, Albertou pintou todo o muro. Desde então, Alberto não mais incomodou Ana com perguntas controladoras.
Na primeira reunião de família seguinte, recebendo o cunhado em casa, após o almoço, colocou o avental e começou a lavar a louça. Seu cunhado surpreso disse de forma jocosa:
- Lavando os pratos! Que novidade é essa?
Ao que Alberto respondeu firme e sério:
- Isso mesmo! O que tem de mais nisso? Lavar? Passar?!
O cunhado então respondeu:
- Nada, ora!
Replicou Alberto em sua intervenção final, meio disperso:
- Pois é, não é nada demais. Nada...

sábado, 19 de junho de 2010

O RELÓGIO


Por mais uma vez, Dona Penha acordou sentindo um calor fora do comum. Nos seus setenta e poucos anos, talvez não lembrasse de um verão tão quente em João Pessoa. Em verdade, estava em Cabedelo, mas como «em sua época», como afirmava, «tudo era João Pessoa». Levantou-se, lentamente, com a certeza de que seus ossos estavam um pouco mais frágeis do que ontem. Procurou os óculos, tateando com a mão direita na pequena escrivaninha ao lado da cama. Colocou-os. Levantou. Dirigiu-se ao banheiro, onde satisfez as primeiras necessidades do dia em nome da boa higiene. Voltou ao seu leito e arrumou a cama cuidadosamente. Era um orgulho diário, um momento que refletia e sentenciava: «Isso, sei fazer como ninguém!».

Preparou seu café, logo após abrir todas as janelas do apartamento. Que calor! Colocou um ovo para cozir. Pão integral, queijo, iogurte... Tudo pronto! Sentou-se à mesa. Lembrou do tempo em que a mesa era mais animada. Havia mais gente. Havia assuntos. Hoje? Só lhe resta lembrar. E assim, lembrava...

Vestiu uma roupa leve e saiu para sua caminhada. Sete horas da manhã e o calor já incomodava. Acabou decidindo que caminharia um pouco menos, pois já estava mais cansada do que o comum. Em casa, sentia as artrites e artroses suas companheiras, cada vez mais, presentes. Ligou a TV. Os programas não a interessavam mais em nada. Pelo menos o alto volume do aparelho, dava uma sensação de se estar acompanhada, enquanto preparava seu almoço. Olhou para o relógio. O encontro dos ponteiros anunciava a hora da segunda refeição. Sentada à mesa, sentia novamente a falta de uma companhia. Onde estariam seus filhos e netos? Todos estão sempre ocupados demais. A vida hoje é tão corrida, que já não se sobra tempo para se viver.

Após o almoço, lavou o prato e as poucas pequenas panelas. Misssão cumprida, sentou-se diante da TV para mais uma sessão de programas vazios. Olhava o relógio, mas a tarde era sempre lenta. Parecia o período mais perpétuo do dia. Resolveu limpar suas coisas. Por alguma razão, escolheu espanar os velhos álbuns de fotografias. Ao final, acabou por enxugá-los das tantas lágrimas que rolaram. «Estou por demais emotiva!», pensou. O calor sufocante aumentava, decidiu ir caminhar.

Dona Penha tirou as sandálias e caminhou um pouco na beira-mar de Intermares. Olhou a paisagem com uma imensa alegria. Admirava aquelas pipas enormes e coloridas que arrastavam os jovens sobre uma pequena prancha. Olhava as belas meninas em trajes diminutos desfilarem. Impressionava-se como a juventude de hoje era desinibida. Assistia aos abraços e beijos calientes dos enamorados. Sentia saudade dos abraços fortes e dos arrepios do amor.

A noite finalmente foi chegando e a hora de retornar também. Já em casa, tomou um demorado banho. Após se vestir, pensou em ligar para os filhos. Mas, certamente, estariam, ainda, presos no trânsito, cansados e sem tempo para perder com a velha mãe desocupada. Resolveu comer uma sopinha no jantar. Sorveu sua porção lentamente. Olhava o relógio, mas não era a hora do jornal ainda. Impresionava-se como o tempo parecia parar, quando antes a ampulheta da vida pareceu se esvair tão rapidamente. Enfim, o jornal com as mesmas notícias. Depois, a novela com a mesma história.

Preparou-se para se deitar. Vestiu o velho e amado pijama de seda. Sentou-se à mesinha de estudo em seu quarto, abriu a Bíblia e começou a ler. Às dez em ponto, leu o último versículo:

- O Pai ama o Filho, e todas as coisas entregou nas suas mãos. (João 3:35)

Beijou seu crucifixo. Orou com as mãos sobre a Bíblia. Abriu um pequeno pote e despejou o cianureto sobre o copo d`água. Suspirou profundamente e bebeu. Enfim, Dona Penha se deitou em busca de uma nova vida, fosse ela eterna ou não. Enquanto ela não vinha, olhava atentamente para o relógio.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O TEMPO POR X e Y*

*para quem se admira com os mistérios da ampulheta da vida


X: - Você já parou para pensar sobre o tempo?
Y: - Bem... Já. Afinal, quem não? Queria ter o tempo em minhas mãos.
X: - Estava pensando acerca do tempo perdido. Daquilo que poderia ter feito...
Y: - Tempo perdido?!
X: - Sim. Pense na seguinte hipótese: se o tempo perdido pudesse ser encontrado o que ele diria?
Y: - Nada, acho. Ou poderia agradecer ser encontrado. Talvez, falasse de onde estava. Mas onde será que estaria ele?
X: - Perdido! Em algum lugar no passado.
Y: - Visto assim, trata-se, sem dúvida, de um sujeito cabeça dura!
X: - Quem? Eu? O tempo perdido? Ou o passado?
Y: - O passado. Ele se vai sempre e nunca volta. Ficam todos relembrando dele, nostálgicos... As oportunidades que nele se perderam.
X: - Mas, pelo menos, há o presente, aqui, conosco. Sabe de uma coisa? Popular é o futuro! Todos falam dele no presente, e sempre falaram no passado.
Y: - Verdade. Mas o futuro é muito ingrato.
X: - Ingrato? Por que?
Y: - Nunca aparece... Nada sabemos ou temos certeza dele. Portanto, é tudo mera especulação. É impossível dominar o acaso.
X: - Nunca tinha pensado nisso. Mas entendo... Ficamos, aqui, sonhando cheios de esperança... Acho que a resposta é “ter fé”!
Y: - E quem não tiver fé? Eu não tenho fé alguma.
X: - Estará condenado a vagar perdido no tempo. Será sua sina, amigo.
Y: - Coitado de mim, perdido no tempo que pode está perdido no passado...
X: - Mas sempre há o presente. Apenas ele pode nos ajudar.
Y: - De fato, temos apenas o presente! O passado está perdido e o futuro é incerto!

domingo, 23 de maio de 2010

SOLIDARIEDADE

Alfredo era um cara conflituoso. Namoro em crise, farras prosperando. Na verdade, parecia, sempre, imune aos abatimentos, tristeza, decepções e demais mazelas do coração. Era sexta-feira e a namorada ligara com aquele ar fúnebre: “Precisamos conversar...” Nestes instantes, a percepção masculina capta o odor típico da propagação da combustão do pavio. Em outros termos, é bomba chiando na certa!

Chegou à casa da amada por volta das 21:00 horas. Sentou-se... e o resto veio em cascata. Você isso! Você aquilo! Você isso naquele dia! Você aquilo no centésimo quarto dia de namoro... Até Alfredo, que era calmo, explodiu. Pediu a sentença com dispensa de relatório. E lá veio: “Isto Posto, julgo extinta nossa relação sem direito à apelação”. Alfredo renunciou a qualquer recurso, e ligou para os amigos, e, logo, encontraram-se no bar de costume: o Jam Pub.

Lá, relatou o ocorrido, e, obviamente, recebeu, regada a cerveja, toda a solidariedade dos amigos. Paulo era o mais legal, disse tudo que um homem quer ouvir nestes instantes de abandono.

- Você é um cara legal, Alfredo. Liga não! Mulher tá feito cotovelo em feira, uma batendo na outra...

Alfredo respirou e bebeu, depois, bebeu mais. Estava novo. Estava livre, solto, uma quase-libélula, pensou. Mas logo corrigiu, também em pensamento:
- Que viadagem, libélula que nada! Sou um carcará e vou caçar.

Olhou para os lados, a galera tava animada, a banda tocava System of a down, Chop Suey. De repente, a sorte soprou de seu lado. Lá estava Natasha. Ela era linda, um corpo daqueles que nenhum homem resiste olhar e que muitos acham que não dá para pegar. Ela dançava, próxima ao balcão muito animada e sozinha. Um copo na mão, um cigarro na outra. Então, ela soltou o copo no balcão e sorriu para Alfredo, que a olhava fixamente. Ele se aproximou, apresentou-se, beijaram-se na face, conversaram amenidades. Logo, já estavam dançando, quando o beijo lascivo veio, sem origem precisa, afinal ambos queriam aplacar a atração que sentiam.

Alfredo nem sabe quanto tempo passaram se beijando, eram sessões ininterruptas. Só havia espaço para um trago, ou mais um gole, fora isso, no máximo, um cochicho rápido com algum amigo que passava. Acontece que Natasha, explicitamente, passou a declarar-se inconformada com a hipótese de ir para casa às quatro da manhã. Por estas alturas, Alfredo já não era um exemplo de raciocínio rápido e lógico, e largou a proposta indecente:

- Vamos para um local mais reservado, porém não menos animado? Pode ser?

Natasha, com a língua furtiva entre os dentes, e em contato com a orelha dele apenas respondeu:

- Pode. Por que não? Basta dizer onde, que vamos agora...

Alfredo então passou a ter dois problemas. O primeiro era: Para onde ir? Mulheres sempre são imprevisíveis, e motel na primeira noite é sempre um risco de fiasco. O segundo era como ir. Não estava de carro. Ainda buscando as respostas que precisava, ele avistou Paulo, o amigo legal.

Paulo estava em pé, mas ameaçava mudar de posição, rapidamente. Os corrimões do bar eram uma idéia fantástica, além de uma utilidade latente. Alfredo falou com Natasha, pegou Paulo, e foram os três pro estacionamento. Paulo mesmo com problemas visíveis de áudio e imagem, observou Natasha e elogiou o amigo na frente da menina:

- Filho da Puta! Que mulher é essa, meu irmão? Ela num tem uma amiga igual a ela? Uma irmã? Gêmea talvez?

Todos riram, e ele desabou no banco de trás do carro. Alfredo levou Paulo para seu apartamento e, com a ajuda de Natasha, o jogou na cama. Graças a ela, Paulo não dormiu de sapatos e ainda bebeu um copo de água providencial.

Missão fraternal cumprida. Alfredo caminhava para a porta do Apartamento quando Natasha o puxou. Ainda no primeiro beijo, caíram sobre o sofá, e deste para o chão. Em minutos, estavam nus no carpete da sala, ao som de um DVD de Pearl Jam. Alfredo não sabia quanto tempo tinha ficado dedicado as acrobacias de alcova. Mas percebeu, ao som de Better Man, Paulo, observando tudo. Paulo estava semidespido, só usava cueca, olhava tudo sorrateiramente. Seus olhos centilhavam um misto de desejo e satisfação. Alfredo, sem que Natasha percebesse, a afastou para que ela não pudesse observar Paulo e nada mais fez, além do que já fazia: preencher os espaços que Natasha lhe oferecia.

Na manhã seguinte, os três tomaram café juntos. Entre gargalhadas e olhares, Paulo não tirava os olhos de Natasha e da forma como ela bebia o iogurte. Alfredo só sorria solidariamente...

domingo, 9 de maio de 2010

O GARFO DE PRATA

Marcos Mota era o típico acadêmico brasileiro. Dedicado, cheio de cultura, mas com pouco dinheiro. Professor da UFCG sua maior satisfação era ministrar palestras pelo Brasil. E, ultimamente, após o seu pós-doutoramento estava sendo convidado para eventos internacionais. Infelizmente não participava de todos. Aliás, poucos conseguiam ir devido a falta de recursos da universidade. Mas apesar dos pesares, lá estava Marcos, em Paris, França! Que maravilha! Sua ansiedade era tanta que quando caminhou pela Champs-Élysées foi invadido por uma sensação indescritível de realização. Além de toda a magia da terra de Napoleão, Rousseau, e Sartre, era sua primeira publicação de trabalho na França. Quem haveria de ficar ileso a tanta novidade?

O congresso era uma beleza. Luxo, pompa, tradição e elegância marcavam o evento. A apresentação de Marcos foi muito aplaudida, só se arrependeu de nunca ter estudado Francês, mas o Inglês foi amenizado com várias inserções simpáticas de expressões francesas, com o intuito de fazer o metier.

Enfim, chegara a última noite em Paris. Como despedida resolveu jantar num bom restaurante. Foi ao Alain Ducasse, restaurante situado no Plaza Athénée. Lá, pediu um escargot au vin. O recinto possuia uma excelente decoração, todo o local tinha um charme único. Porém, algo chamou a atenção de Marcos como nada antes. Ele estava maravilhado com os talheres. Um prateado inigualável, fantastique! Foi quando decidiu levar uma lembrançinha especial de Paris. Pensou em pegar o garfo e a faca, mas a faca poderia dar problema na alfândega, com toda essa paranóia de terrorismo. Por isso, foi no garfo com força.

Devagarzinho, envolveu o talher escolhido com sua mão esquerda e o guardou no bolso. Este ato durou um único segundo, mas em sua mente foi planejado nos mínimos detalhes. Ao terminar a refeição, solicitou a conta, nem olhou seu valor, não importava. Seu objetivo era outro: um pedaço de Paris. Quando o garçom retornou com o seu cartão de crédito, Marcos agradeceu, guardou o cartão, e levantou. Cada passo até a porta custava-lhe um esforço colossal. E numa progressão geométrica a culpa ia tomando conta de sua consciência. Rapidamente mentalizou uma manchete na Folha ou no Estadão “Paraibano preso por roubo na França!”. No Correio da Paraíba e no Jornal da Paraíba seria capa, sem a mais mínima dúvida. Suava frio, latejava sua pulsação sangüínea. Neste instante, foi tocado no ombro... Segurou um grito denunciador, mas um tremelique foi inevitável. Era um garçom lhe avisando que a porta que estava prestes a ingressar era da cozinha e não a da saída. Marcos, agradeceu, com um trêmulo «Merci!» Virou-se e caminhou na outra direção.

Contudo o medo aguçara sua visão periférica e percebera o garçom que acabara de alertá-lo, estava conversando com um segurança. O frio correu-lhe pela espinha imediatamente. Estava perdido. Sem hesitar ingressou no banheiro. Numa pane orgânica, seu intestino lhe traiu de forma impiedosa. Exausto, e culpado resolveu encarar a sorte. Devolver o talher seria um ato covarde, e Marcos era um homem de fibra. Respirou fundo, saiu do banheiro em marcha. Imaginou como fundo musical o hino francês, La Marseillaise. Perto da saída encarou o recepcionista do restaurante, mergulhou, por seus olhos, n`alma do indivíduo, este prontamente abriu a porta por onde Marcos atravessou triunfante.

Ao chegar no hotel, estava embevecido pela sua coragem. Retirou o magnífico troféu do bolso. Passou a admirá-lo, lentamente, prazerosamente. Quando, então, uma pequena inscrição no talher retirou-lhe a glória. Lá estava, não devia, mas estava: “Made in Brazil”. Marcos roubara sua pátria.

domingo, 2 de maio de 2010

A CURANDEIRA

Mônica Barros era do tipo “mulher que pode”. Tinha status e independência financeira e se orgulhava disso. Na verdade, desde a escola ela era admirada pelo desempenho e postura madura que patrocinava. Seu codinome entre as coleguinhas era «N & N», pois conseguia conciliar notas & namoros. Quando Mônica foi aprovada no vestibular, para o curso de medicina da UFPB, tratou de acabar o namoro do momento, pois, naquele instante, entendia ter a obrigação de estudar de “verdade”.

Na universidade, ela se destacou pela dedicação às disciplinas o que ecoou numa admiração geral de todos os alunos, professores e funcionários, além de resultar numa excelente média geral. De fato, Mônica detinha a maior média de sua classe. Ao final do curso, fora eleita oradora de sua turma e ganhou uma medalha de honra ao mérito do Centro de Ciências da Saúde. Mal se formara médica já fora aprovada no Programa de Saúde da Família (PSF), que conciliou enquanto pôde com a residência em dermatologia. Foram anos de muito trabalho, muito aprendizado e poucos namoros, na verdade, nenhum que se possa creditar como sério.

Enfim, os anos de cumulação do PSF e plantões, em hospitais privados e públicos, possibilitaram reservas econômicas, que unidas a algum capital paterno realizaram o sonho de sua própria clínica de dermatologia. Mônica fora um caso típico de sucesso fruto de competência e sagacidade. Em sua mente, o sucesso era uma questão de tempo e vinha com absoluto merecimento.

Aos 35 anos estava no auge profissional. Clínica estabilizada, pacientes numerosos e satisfeitos com o atendimento e atenção que Mônica os oferecia. Em verdade, destacava-se o alto grau de informatização de sua clínica e os recursos humanos de alta capacitação. Tudo, obviamente, sob a tutela da médica chefe e, também, diretora geral: Mônica Barros.

Justamente, na época que atingira o ápice profissional, inclusive com o seu doutoramento acadêmico pela USP, algo parecia faltar-lhe. Uma náusea tomava conta de sua alma. De alguma maneira, sua existência estava questionada. A dúvida nunca tinha feito parte de sua vida, mas parecia se alojar velozmente em sua vida.

Nada mais havia o que galgar na medicina. Seu mundo passara a ser deforme e volátil, não mais tinha a firmeza de ações como outrora. Toda esta ebulição questionadora de sua vida trouxe-lhe um sentimento de inutilidade, de infertilidade, e esterilidade. Dentro de sua racionalidade Mônica diagnosticou o problema como “desejo inconsciente de maternidade”. Ocorre que, logo, tal desejo inconsciente transformou-se em consciência. Neste período (trinta e oito anos e solteira) constatou que sua vida afetiva fora nula, ou melhor, anulada. Resumia-se a casos esporádicos e de pouca durabilidade. Lembrou-se de Paulo talvez o mais sério envolvimento que se permitiu. Mas concluiu que tudo que construíram juntos foram alguns momentos de agasalho sobre a fria maca hospitalar em plantões entediantes. Paulo passou, estava até casado e, já fazia tempo. A vida passara e Mônica ocupada ou concentrada demais não percebera.

À busca da maternidade, então, ela se entregou. Seria a cura da sua patologia espiritual. “Havia tempo”, pensava. Ocorre que esta ânsia de maternidade afastava os homens que se envolvia. A cronologia natural dos relacionamentos não mais lhe apetecia. Não podia se dar ao luxo de uma história completa de amor, com início, meio e fim. Em sua convicção, só o meio para o fim interessava.

Sem poder mais esperar pelo acaso, ou qualquer outro curso natural dos acontecimentos, restou para Mônica a inseminação artificial. Foi justamente deitada na maca da clínica de inseminação que aceitou os fatos. Como uma curandeira, aprendeu todos os elixires contra os males físicos, os ensinamentos que sua cultura propiciava. Como uma curandeira, teve fé em tudo o que fez. Como uma curandeira, dedicou-se à tribo e esqueceu-se de si. Curou muitos dos perigos da vida, e, naquele instante, durante a cópula esterilizada, precisa e autômata, pôde diagnosticar que viveu doente sem amor.
 
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