terça-feira, 2 de novembro de 2010

O CRAVO E O ROSA

Amadeus Rosa era um cara de pouca sensibilidade. Isso não o fazia propriamente mal-educado, entretanto nem sempre era cortês. Dessa forma, ele era um tanto bruto, por vezes, rude. Sempre de falas curtas e com pouca paciência para as questões fúteis ou triviais da vida, primava pela respostas diretas e pelas perguntas estritamente necessárias. Por toda essa crua objetividade, os amigos o chamavam de Rosa. Afinal, seu sobrenome casava de forma verdadeiramente paradoxal com a delicadeza que lhe faltava. Assim, Amadeus era, floridamente, referido sob a alcunha de «ROSA» ou «O ROSA». E, como bem sabemos, as rosas têm espinhos.

Olívia Blanc era o inverso. Um doce de pessoa. Menina fina, em verdade, era muito bem educada. Sua família era importante, mas economicamente decadente. Mas na corte o que vale é a origem, portanto para uma Blanc a pose era importante. A etiqueta impecável era sua marca. Além disso, era prendada nos afazeres domésticos, dominava a arte da gastronomia, fosse o prato regional, nacional e internacional. Foi justamente numa noite especial, regada por finas iguarias gastronômicas que ela conheceu o Rosa.

Era a festa de uma amiga de Olívia. Um amigo do Rosa o chamou, pois não queria ir sozinho. Rosa relutou, mas foi. Na festa, àquela altura, um tanto entediante, ele encontrou Olívia. De imediato, o tempo parou. Era como se Deus apertasse um «slow motion», no controle remoto da vida. Cada movimento dela era milimetricamente analisado e admirado, seu rosto era de devoção dogmática. Ele parecia inspecionar, um a um, cada centímetro de Olívia, cada poro de sua pele. Rapidamente, Olívia comentou com uma amiga:
- Olha só como aquele cara me olha! O que será que ele quer?
A amiga rindo sussurrou:
- Te comer!
Rosa caminhou em sua direção e se apresentou. A conversa iniciou-se amena, com os «O que» e «Quem» de sempre: O que você faz?, O que você gosta?, Quem você conhece aqui?, etc. No meio do papo, quase do nada, o Rosa falou:
- Princesa, posso te dar um beijo?
Olívia respondeu:
- Tá Louco!? Mal te conheço!
Rosa:
- Nenhuma forma melhor de conhecer há que essa! – e tacou um beijo daqueles.
Olívia de início resistiu, mas foi mais forte do que ela. Não Rosa, o desejo. A insustentável leveza do ser a empurrou para os braços do bruto, demoradamente. Quase perderam o fôlego. Quando, finalmente, ela falou:
- Você é muito atrevido, Amadeus!
Ele:
- Nada disso. Sou homem. Você que tá mal acostumada, andando muito com esses burguesinhos. Ainda não sabe como é um homem de verdade.
Olívia com um ar desafiador, retrucou:
- Ah, é?! Suponha que você deva ser um homem desse espécime genuíno. Uma pena você achar que eu não sei o que é um homem de verdade.
Foi quando o Rosa disse:
- Não sabe mesmo! Mas se quiser saber, estou aqui.
Olívia pareceu se transformar. Puxou o Rosa pela gola da camisa e disse:
- Siga-me se for capaz... de verdade.
Refugiaram-se num pequeno quartinho. Era uma dispensa, cheia de salgadinhos, docinhos, bebidas, enfim, o buffet da festa estava ali. Lá, beijaram-se, abraçaram-se, trocaram carícias intensas. Rosa ainda tentou:
- Você é louca é? Alguém pode chegar! Vamos sair daqui!
Olívia vitoriosa e maliciosamente disse:
- Para onde foi aquele homem de verdade que tava lá fora? Acho que continua por lá. Será que tenho que te abandonar e procurar por ele?
Rosa a agarrou com mais força e a despiu parcialmente. Sem suportar mais o desejo, a fidalga moça cedeu. Apoiada entre as prateleiras se entregou com classe. A mão direita se afundou numa bandeja de pastéis, a esquerda, numa de docinhos. Enquanto sua libido se libertava, Olívia experimentou um dos docinhos. «Uma delícia!», pensou. Assim, entregue ao impulso, ela degustava os docinhos compulsivamente. Eram daqueles que tem um cravo-da-índia fincado no meio do docinho de côco. E a cada movimento brusco do Rosa, Olívia mordia o cravo, enquanto o espinho que lhe alcançava denunciava que estava mais viva do que nunca. Ela consumia o cravo e o Rosa. Olívia, enfim, aceitara que era uma grande pecadora. Gulosa como ela só!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A VISITA

Noite de quarta-feira. “Dia de jogo!” - pensei. Mas uma tosse interrompeu meus pensamentos e me relembrou de meu estado patológico. O corpo moído e quente denunciava as mais de vinte e quatro horas de febre. Muita febre. O pior é que em meus aposentos não havia uma mísera televisão. Graças à bondade e literal fraternidade de meu irmão, que tinha me retirado esse essencial equipamento. Na verdade, lamentava não ter ido ao médico... Mais um dia sem tempo... Sem tempo para mim... Tinha vendido meu tempo e percebi o quão onerosa esta negociação poderia ser.

Sem opções, resolvi entregar-me à febre e às dores. Envolto nas cobertas, procurei por um bom tempo o sono. Tudo em vão. Achei a insônia. Coincidentemente, o clima da noite mudava. De uma noite de calmaria, passava-se a tempestade. Os ventos denunciavam o prenúncio da chuva. E como choveu! Nossa! Um verdadeiro aguaceiro. Não lembro por quanto tempo, mas a noite pareceu uma eternidade. Muito vento e muita chuva. A maré alta orquestrava uma sinfonia de ondas oprimidas e opressoras, que reivindicavam respeito ao quebrar na praia. Cheguei a estranhar aquela ressaca imprevista. Mas a noite não me marcaria pelas ondas, ou pela douta chuva. O cenário natural ficaria em segundo plano em minhas memórias. Pois, foi nesta noite que o tempo parou para mim. Verdadeiramente, o tempo hesitou prosseguir quando ela chegou.

A dinâmica da vida optou por parar também. Lembro apenas ter percebido o silêncio, mas o estado febril me impedia de levantar e averiguar suas causas. Foi então que senti a sua companhia. Já não estava só no meu quarto... É difícil explicar... Sua forma humana não me deixa confortável ao ponto de dizer que estava lá com alguém. Ela se parece muito mais com algo que com alguém. Verdade seja dita, recebi a visita da Morte, mas não lembro o seu rosto. Lembro apenas da sensação de sua proximidade. Isto não se esquece. Você já morreu por alguns segundos? Talvez um dia você identifique a sensação que relato. Ela é a essência da falta, o excesso do nada: o fim.

Ela chegou deixou algo escorado, tipo uma bengala, na parede, e sentou-se na beira de minha cama. Com uma voz serena e calma perguntou-me:
- Está pronto?
Respondi – confesso ainda desnorteado:
- Pronto?! Para quê? Quem é você?
- Ora, não me diga que você não percebe o que está se passando? – retrucou minha ilustre visitante.
- Bem – respirei fundo, controlei os nervos e racionalizei o contexto – Posso supor, mas prefiro a objetividade da resposta pelo seu próprio portador.
- Vocês me chamam de “morte”. Eu prefiro me entender como um “Guia”.
- Quer dizer que estou morrendo? Por uma gripe? – explodi - Que merda é essa?!
- Calma Doutor! Gripe mata muita gente, não há nenhum demérito em morrer assim...
- É mesmo?! Você morreu de que?- Rebati
- Bem... eu nunca morri... eu...
- Fácil entender... é um consultor... – confesso que até ri nesta hora - Nunca passou pelo problema, mas entende tudo que se passa.
- Pode ser. Mas... Isso não muda nada... Siga-me, por favor. - Retrucou a Morte um tanto quanto sisuda.
- Estou doente, colega. – respondi apavorado – não posso sair andando pela madrugada com os amigos. – Confesso que, a esta altura, era a definição do desespero.
- Gosto de seu humor. No entanto, você virá cedo ou tarde. – disse ela.
- Pois será tarde. – a esta altura não estava nervoso, mas uma sensação de necessidade aguçava meu senso de sobrevivência - Não há lógica em minha ida assim. Minha família está longe, coisas demais para acabar, coisas demais para iniciar... Não é hora mesmo.
- Advogados sempre presunçosos! – e num é que a Morte deu uma boa risada.
- A questão num é essa. Apenas questiono a oportunidade, deve haver um precedente. Alguém que você “guiou” na hora errada. Não há? - Desafiei
- Não lembro. – Disse ela hesitante, e continuou: - São tantos. De fato talvez uma vez... Talvez... Não. Não! Nenhum engano.
- Mentira! Difícil dialogar com quem falta a verdade! – Repliquei.
- Alto lá Senhor! Respeite-me! Vamos agora e pronto! – Falou firme, segurando-me pelo braço.
Nesse momento, meu corpo literalmente gelou, não sentia mais qualquer sinal vital de minha parte. Em desespero juntei, quem sabe, meu último sopro de vida e afirmei com a voz trêmula e fraca:
- Euu pó-posso provar.
A Morte me soltou e indagou:
- Mas que sujeitinho metido! Pode provar o que?
Foi quando afirmei, já mais firme, com os sinais vitais perceptíveis:
- Que você já se enganou.
Então veio a proposta da Morte:
- Vamos lá! Dê-me um só exemplo de engano de minha parte, que deixo você aqui por enquanto. Ou seja, afinal você num é imortal, então mais cedo ou mais tarde eu volto, mas fico aguardando um novo mandado.
Como falei anteriormente, não sei quanto tempo pensei, apenas não conseguia encontrar nenhum caso de engano da morte, de repente pronunciei desesperado:
- Jesus!!!
Foi quando a Morte esbravejou:
- Ah, não!!! Você também!
Aproveitei o momento de vulnerabilidade que a Dona Morte deixara transparecer e argumentei:
- De fato! Está lá no Novo Testamento, V. Exa. bem que chamou Jesus, mas em 72 horas lá estava ele de volta. É um precedente! Jurisprudência divina e do mais Douto gabarito.
- Num é bem assim - retrucou a morte – Jesus tinha que ressuscitar, fazia parte do combinado. Ademais, ele é Deus e pode tudo!
- Deus-homem! Portanto um homem. Por conseguinte é “alguém”.
- Nada disso, vamos lá – o falar da Dona Morte, mais uma vez fazia meu corpo se tornar imperceptível.
- Calma, calma! Trato é trato! Pacta sunt servanda! Eu falei “Alguém que você ‘guiou’ na hora errada. Não há?”. E você me desafiou a provar. Provei, pois se Jesus é Deus, é também um Deus encarnado, um homem também. É o “Alguém” mais importante da história da humanidade.
- Ai, Deus! – Disse a Morte e continuou:
- Você num entende, eu não errei com Jesus, pois eu não tinha guiá-Lo, pois Ele sabia o caminho.
- Aí não é justo! Como posso ser condenado por algo que não entendo!?? – Arrisquei essa já no desespero.
- Ah, não! Algo que não suporto é ser acusada de injusta. Deixa-me consultar o Salvador aqui.

Um minuto depois...

- Sei não! Às vezes nem eu entendo! Olha só Doutor... Tua gripe foi curada. Passe bem, por enquanto... – E assim a Dona Morte se foi.

E eu que criticava a frase, tantas vezes, aposta nos pára-brisas alheios: “Só Jesus Salva”. Bem a história Dele me salvou, ao menos, temporariamente, posso continuar trilhando meu caminho.

sábado, 18 de setembro de 2010

Encontro com Vó

A medicina não é um ofício fácil. Exige uma vocação do seu exercente, um chamado quiçá divino, na luta pela cura. Tal ofício, a despeito de sua beleza humanitária, nem sempre é prazeroso. Primeiro, tem-se que considerar a extensa maratona até o pseudolivre exercício da medicina. O desafio se anuncia no vestibular, sempre muito concorrido, e se estende por cerca de seis longos anos de graduação, até a definição da área de especialidade desejada. Esta última etapa transcorre em um intervalo de dois a cinco anos, dependendo da especialidade. No entanto, após estes obstáculos, o mar de rosas se instala em consultórios frios, onde os pacientes são recebidos por ferozes cães secretários tão higienizados quanto à moral dos mentores do cenário que a todos ali circunda. A indústria da cura, enfim, premia aquele que vocacionado optou pela vida de pajé businessman. Foi o que fiz.

Mas a verdade é que a faculdade é um poço de incerteza e superficialidade. Decora-se muito e se entende pouco dos fins e meios. Diagnóstico: o «Te vira!», na fase terminal (a residência). É na residência médica que se apreende a essência do ofício, o verdadeiro aprendizado para ser médico. Pois, é, lá, abandonado num plantão, em plena madrugada, que o futuro curandeiro, já Doutor, se acotovela com a casta dos guerreiros enfermeiros na tentativa de salvar vidas. Afinal, Hipócrates nos faz jurar que não nos omitiremos na prestação de socorro a quem quer que necessite. Foi justamente quando estava em residência, no sofrível ambiente ambulatorial do hospital universitário, que testemunhei o que agora passo a relatar.

Não sei exatamente que horas eram, também, neste episódio, a hora não é importante. Sei que era madrugada. Daquelas mais frias, que o mês de julho traz à Campina Grande. Estava, naquele dia, incumbido da pediatria da oncologia. A verdade é que, aquela altura, minha percepção médica já estava bem formada e não mais me sensibilizava com os pequenos corpos débeis e calvos que habitavam aquela ala. Ocorre que, desde o nascimento do meu sobrinho, passei a imaginar o quanto algumas vidas tinham tanto a mais em relação às outras. Enfim, resolvi aproveitar a oportunidade e verificar o trabalho dos enfermeiros quanto ao respeito aos elixires farmacológicos indicados por meus colegas de jaleco.

Examinei o primeiro quarto. Estava tudo em ordem. Eram dois casos similares, medicação parecida, com os ajustes devidos em face da evolução de cada quadro patológico. Então, adentrei, no segundo quarto, para minha surpresa, na penumbra, visualizei uma velha Senhora, vestida em lã, com lenço na cabeça. Não consigo lembrar seu nome, talvez, lamentavelmente, eu nem o tenha perguntado. Assim, neste momento, vou tratá-la de “Vó” apenas. Não compreendi como ela ali tinha se instalado uma vez que era uma área que não comportava acompanhantes. Foi então que perguntei:

─ A Senhora entrou aqui com autorização de quem?

─ De fato me chamaram aqui. Vim e eles estavam ainda acordados, brincamos e conversamos um pouco. O Lucas quer ser goleiro de futebol. João metaleiro. Nem sei bem o que é ser isso, mas ele falou que vai usar um cabelão enorme. Adorei! ─ Vó falou, então, calmamente.

─ E não avisaram a Senhora que tinha que sair? ─ insisti na tentativa de elucidar para Vó que estava ela infringindo uma norma do hospital.

─ Não. Nada me disseram neste sentido. Não hoje. Você vai me expulsar? Sei que podes fazê-lo, afinal o Doutor estaria com sua plena razão. Mas é que amo esses meninos! ─ respondeu Vó.

─ Não vou expulsá-la, mas que isto não se repita. Tá certo? ─ sentenciei.
─ Muito obrigada. É que estes meninos são irmãos e me impressiona a vontade que demonstram em seguir seus sonhos. ─ disse Vó.
─ Lamento uma mesma família ter dois meninos doentes. Pode ser hereditário. Desculpe... A senhora é parenta próxima? ─ perguntei.

─ Sim. São filhos praticamente. O Doutor está certo. É hereditário. Como tudo que temos e somos, outros já tiveram e foram. O Doutor sempre quis ser médico? ─ perguntou Vó.
─ Bem, sempre quis sim. Só quando eu era muito menino quis ser malabarista. ─ respondi aquela altura, confesso, já simpatizando com Vó.

─ Você não deveria ter desistido, seria um ótimo malabarista tenho certeza. Ademais, faria vários pequenos como estes dois aqui sonharem em ser malabaristas, também. Deixe-me ver suas mãos! – estendi as mãos e Vó as massageou com firmeza, e falou – Como são firmes! Demonstram uma musculatura bem coordenada. Daria um bom cirurgião.

─ Estou caminhando neste sentido, mas a cirurgia que realmente quero é a cardíaca e isso me fará ficar aqui mais três anos, e não sei se vale a pena... ─ foi quando Vó me interrompeu.
─ Vai desistir de seu sonho de novo Doutor? ─ perguntou Ela.
─ Não sei. Decidirei oportunamente. Mas a senhora quer algo para comer? Posso tentar trazer-lhe logo cedo uma refeição, junto com a dos garotos. ─ Ofereci a refeição meio sem jeito, pois teria que bancar a mesma, uma vez que o hospital não alimenta acompanhantes lícitos, imagine, então, os ilícitos.
─ Não se preocupe. Tudo que quero está aqui junto, e logo que amanheça partirei esperando não causar problemas. Obrigada, Doutor. ─ Logo que agradeceu, Vó segurou minha mão e a beijou com ternura.

Confesso que não mais lembro o que, ou mesmo, se falei algo quando da despedida. Apenas me lembro que ao voltar para a sala do plantão cochilei, confortavelmente, invadido por uma calma tremenda. Acordei com a enfermeira, também, de plantão me perguntando sobre uma certa medicação. Logo que respondi, olhei para janela e o sol começava a saudar o dia. Lembrei de Vó e fui ao quarto onde estavam os irmãos. Era o quarto de Lucas e João. Lá, ainda dormiam e Vó não mais estava. Perguntei a enfermeira se ela tinha visto a simpática Senhora, mas a mesma me respondeu negativamente.

Apesar de meu plantão acabar às seis da manhã, esperei os garotos acordarem, o que só aconteceu por volta das sete para a tomada da medicação. Foi, então, que conversei com Lucas sobre quem seria Vó. Ele não pareceu entender bem o que eu perguntava, mas confirmou que queria ser goleiro de futebol. Queria ser o guarda-redes do Flamengo. João acordou e falou de como gostava de rock, na verdade ele “curtia heavy”. Quando perguntei pela terna Senhora, se seria sua avó ou tia, ele respondeu que era “Vózinha”. Ele então falou:

─ Ela é minha amiga do hospital, disse que também sente dores no coração quando entra aqui. Mas que um dia vai ficar boa. Disse que eu ia tocar na banda de heavy quando eu crescer. E eu falei para ela que queria ver Lucas levar um frango. Ela disse que eu ia, pois ele ia agarrar na televisão um dia.

A verdade é que ao examinar os prontuários de Lucas e João constatei que não eram irmãos. Continuei visitando aqueles meninos, tentando reencontrar Vó. Foi em vão meu intento. No entanto, pude ver dois pacientes de leucemia curados, em meses, numa evolução constante de seus quadros. Desde lá não consigo esquecer Vó, e não consegui mais abandonar meus sonhos. Sou cardiologista, e uma vez por semana me dedico a visitar hospitais de câncer de idosos e crianças onde converso e faço malabarismos para entretê-los. E é fazendo esquecê-los do tempo, que descobri meu espaço. E se Vó não quis, ou não pode, mais me visitar, acho que Ela teve Seus motivos. E seja lá qual forem Suas razões, que assim seja Vó. A cada sorriso que recebo, sou mais grato a Ela, e me aproximo da felicidade.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Jesus encontra Zaratustra

Num lugar perto do longe um encontro quase surreal foi sacramentado. Poucos poderiam prever, mas alguns saberão, ao tempo devido, refletir acerca das conseqüências transcedentais deste único diálogo.

Lá estava Zaratustra debaixo de uma jaqueira farto ao lado de dezenas de caroços. Jesus se aproximou, olhou Zaratustra com seus francos olhos negros, sorriu de forma fraterna como só ele sabia, foi quando ouviu o balbucio do profeta:

- Se queria jaca já era... acabou... a última comi nesse instante.

Jesus com extrema simpatia esclareceu:

- Não, não amigo. Venho caminhando faz um bom tempo e fui atraído pela sombra desta linda árvore. Posso compartilhar?

Zaratustra respondeu prontamente:

- Pode sim. Mas só evite ronco e flatulência, pois estou no desjejum.

Jesus gargalha e se encosta ao tronco, e pergunta:
- O amigo o que faz?

Zaratustra respondeu:
- Faço minha parte na missão te todos. Esclareço, levo o que sei a massa ignorante dos humanos que ainda não percebem a existência do super-homem.

Jesus:
- Entendo esta dificuldade de ensinar. As pessoas se julgam cientes de tudo e temem mudanças, não é fácil apresentar-lhes os ensinamentos de meu Pai.

Zaratustra:

- Seu pai era profeta? Professor?

Jesus:
- Meu Pai é o Criador de tudo e de todos. É seu pai também.

Neste momento Zaratustra, interrompeu:
- Meu acho que não. Deus? É ele?

Jesus:
- Este é o seu nome mais popular.

Zaratustra:
- Você num herdou muita coisa, né?

Jesus:
- Bem, herdei a luz, o caminho, penso ser muito mais que preciso.

Zaratustra:
- Mas luz não enche barriga, e caminho dá é calo no pé. De qualquer forma meus pêsames.

Jesus:
- Pêsames?!

Zaratustra:
- Ora, claro! Pela morte de teu Pai.

Jesus:
- Mas irmão, ele não morreu. O seu Espírito é Santo e imortal. Continua vivo em mim, e você...

Zaratustra:
- Em mim mesmo não... A verdade é que você está só no mundo.

Jesus:
- Velho andante. A solidão te arrebatou a noção do mundo eterno.

Zaratustra:
- Nada é eterno... A solidão me fez compreender que o super-homem governa a si próprio e não merece por isso nenhuma compaixão.

Jesus:
- Façamos um trato irmão. Liberte-se de seus preconceitos e abra seu coração para as palavras que agora direi...

Zaratustra:

- Ô menino danado! Que abrir coração! Meu coração é forte e já não se emociona com hipóteses. Mas façamos um trato... Tu silenciarás e venerarás teu Pai. Eu celebrarei o super-homem, e assim viveremos em paz neste mundo.

Jesus com um largo sorriso nos lábios:
- Como queira velho andante, o tempo nos pertence, a paz temos realmente que conquistar. Mas um dia se entregarás ao amor do Pai. Pois, ao fim só há conforto na fé.

Após estas palavras, encostados na jaqueira, Jesus e Zaratustra tiraram um merecido cochilo.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A DITA CUJA

Márcio era um canalha. Canalha mesmo! Com «C» de «Cachorrão». E o pior era que ele era um cara perigoso, daqueles ardis que são capazes de interpretar qualquer personagem para obter a conquista que o interessa no momento. Mas, até Márcio, haveria de penar com Gisele. Ela se dizia santa, fazia o tipo beata, daquelas que é «glória» para cá, «aleluia» pra lá. Mas, o corpo de Gisele era um pecado escancarado, verdadeiro despudor divino, dotados dos exageros exatos nos traços fundamentais da estética feminina. Pensem numa bunda!

Márcio a viu de passagem, num domingo, quando a mesma voltava do culto. Nem a viu direito, mas quando ela passou... «Meu Deus! Que dorso era aquele!» Pensou... Pensou... Deu a volta no quarteirão correndo, quando fez dois lados do quadrilátero urbado, avistou Gisele. Diminuiu a marcha. E quando estava cruzando com seu alvo, soltou a isca:

- Moça, eu estava procurando um templo...

Logo, foi interropido pela jovem:

- O da Santidade Maior da Graça Divina do Senhor?!

Ele, estupefato com a beleza de Gisele, disse:

- Esse mesmo!

Ela retrucou:

- Fica na rua paralela, acabo de sair de lá, que coincidência! Mas hoje nem tem mais culto...

A bela santidade era uma tagarela quando o tema era religião. Enfim, naquele encontro Márcio conseguiu o telefone dela e o acerto de irem ao culto no domingo seguinte.

Foram meses de uma atuação impecável. Márcio traçou a seguinte linha performática: era um ex-viciado em sexo. Seu pecado era a luxúria! Mas na fé, encontrou solução para o problema. A amizade religiosa virou um namorico santo. Nessa fase, sob o pretexto de se entregarem em alma, Gisele pedia que Márcio «confessasse» seus maiores pecados pretéritos. Enquanto ele e sua mente insana produziam as estórias mais calientes que era possível de se imaginar, a sua dileta ouvinte fervia. Era uma erupção contida, que provocava uma implosão nervosa, como resultado de uma profusão de sinapses.

Gisele não era virgem. Ledo engano amigos inocentes! Ela tinha sido uma garotinha levada. Obviamente, sua versão era outra. Disse a Márcio que um garoto tinha se aproveitado dela. Que ela só tinha quinze anos e, por isso já se penitenciou muito, etc.

Passo a passo, Márcio conseguiu evoluir nas carícias. Até que a coisa perdeu o controle. Estavam na casa dela, quando a mãe da santinha saiu para ir ao salão. Teriam, pela primeira vez, umas três horas para se dedicarem ao prazer. Não deu outra! Gisele tirou toda a armadura têxtil que a envolvia. Restou só a blusinha, entre um amasso e outro, já estava de calcinha. Ela usava uma cinta-liga! Márcio incendiado já estava nú fazia tempo! Ela o manipulava literalmente com fervor. Ele, então, rasgou-lhe a calcinha e a possuiu com vigor. A bela Gisele, quando deu por si, já estava tomada por uma energia cósmica indescritível e gritava:

- Ai! Ai meu Deus! Meu Deus! Ai!

Márcio enlouquecido de excitação soltou a pérola:

- Vou foder essa buceta, sua gostosa!

A máscara caiu. Foi como um sinal de alerta, mais, um sinal vermelho de perigo, um alrme. Gisele o empurrou, afastou-se e disse:

- Nossa! Marcinho! Que coisa mais feia! Que pecado! Meu Deus, o que távamos fazendo!?? Viu só? Você já estava me tratanto como uma meretriz!

Márcio inquieto, ofegante e arrependido:

- Meu amor! Me desculpe! É que você me deixa louco! Perdoe-me! Venha aqui...

Ela retrucou;

- Não! Não está certo! Estamos em pecado. E o que você falou foi horrível...

Ele investiu:

- Minha santinha, eu te amo! Você sabe disso! Venha aqui!

Começou a beijá-la. E logo ela foi cedendo... até que a entrega foi total novamente. Voltaram os «Ai meus Deus!». De repente, ela o empurra novamente e fala:

- Nunca mais fale aquilo! Ouviu Márcio Cruz!??

O crápula então se superou, nos seguintes termos;

- Ou meu docinho... Me fale então como eu chamo essa graça que você possui aqui? Tão... ai... tão fervorosa, linda... me diga!

Sem raciocinar mais direito, a Gisele em êxtase respondeu;

- Chama ela de «dita cuja»!

Márcio finalmente bradou:

- Hoje será o apocalipse meu bem! Sua «dita cuja» finalmente encontrou minha «dita dura»!!!

Lá ao longe, um vizinho escutou em tom estridente um «Amém!!!». Achou que era mais uma celebração da imaculada Gisele. Não sabia ele que a «DITA CUJA» estava em redenção.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

REFLEXÃO

Em momentos diversos de nossa vida, deparamo-nos com o vírus da reflexão. Trata-se de uma patologia humana de cunho avaliativo que, para alguns, pode ter definição naquilo que chamamos de «consciência». Determinados momentos de nossa vida estamos mais susceptíveis a tal sorte. Um deles, sem a mais mínima dúvida, é nosso aniversário. Eis, então, que aqui estou: vitimado pela reflexão.

São trinta e dois invernos somados a trinta e um verões, uma avalanche de emoções, muitos amigos e poucos arrependimentos. Qual o resultado dessa fórmula? Ouso pensar que é, primeiramente, gratidão. Sou grato por tudo que vivi. Pelos momentos de dificuldade que tanto me fortaleceram, pelos prazeres tantos que experimentei, pelos lugares que caminhei, pelos papos que fora joguei, pelas dores que senti, pelos beijos e abraços que presenciei.

Mas é inegável a mim mesmo, ou seja, não consigo me enganar se também, não atribuir a essa fórmula um outro resultado: a amizade. Confundo, sinceramente, amizade e amor dada a força e hipertrofia que aquela apresenta em minha existência. Tento ser amigo, pois o que busco desde cedo é encontrar amigos. Sou amigo de meus familiares, pai e mãe, irmãos e demais. Assim os tenho hoje: grandes amigos. Meu filho é meu melhor amigo, com ele tento viver e sentir o que de melhor posso me permitir. Minha namorada é minha grande amiga. Mas, e meus outros amigos? São do bairro, da infância, do colégio, da faculdade, do handebol, do judô e jiu-jitsu, da noite, da faculdade, do trabalho, enfim, de toda uma vida. São todos irmaõs, consequentemente, tornaram-se família também.

Eis a equação síntese de minha reflexão: gratidão + amizade = felicidade. Estou feliz. Não posso esconder. A gratidão ao Grande Arquiteto pelas amizades que me propicia. Aprendi que é falsa a máxima de que «poucos serão seus amigos numa vida». Pois, um só amigo é muito, um tesouro tão valioso e suficiente que deve ser sempre preservado. Que eu consiga ter a sabedoria de resguardar, fortalecer e vivenciar cada uma de minhas amizades, pois o valor do que possuo é inestimável. Assim, entre vocês, meus amigos, sou feliz e me sinto verdadeiramente amado. Obrigado!

sábado, 31 de julho de 2010

BORDEL MANAÍRA


*Nota explicativa: não se trata de um conto, mas de uma triste realidade


A ruas, legalmente, são bens públicos de uso comum do povo. Mas o fato de ser público, não permite que o ambiente seja usado indiscriminadamente para qualquer fim. Lamentavelmente, nossa sociedade parece não perceber isso. E, assim, pouco a pouco, Manaíra foi sendo abandonada. Pelo menos, duas de suas artérias principais, a Av. Edson Ramalho e a Av.João Maurício estão totalmente tomadas pela prostituição.
A denominação Manaíra significa “Seios de Mel”. Refere-se a uma triste lenda indígena. Manaíra era uma jovem e bela índia que fugiu por amor para casar-se com um jovem índio de outra tribo. Ocorre que ela estava prometida ao índio Piancó, um poderoso chefe tribal dos índios Coremas. Pela ousadia, o Cacique Cangussu, pai de Manaíra, entrou em guerra com a tribo de seu amante. Ao final, consagrando-se vencedor na batalha o Cacique Cangussu mandou matar a bela jovem Manaíra e seu amante. Tudo pela honra de sua palavra perante Piancó.
Pois, eis que a lenda de Manaíra parece assombrar o bairro que a homenageia. Lá, a honra não tem espaço entre as crianças semi-nuas que ofertam sua pureza ao preço vil do abandono social. Não se diga que tudo ocorre, na escuridão da madrugada, na calada da noite ou nas trevas. Tudo começa ainda cedo, no horário do rush, sob as luzes dos painéis publicitários e milhares de faróis que iluminam o caminho de casa. Os atletas continuam suas caminhadas e corridas, desviando dos sensuais obstáculos vivos e oferecidos. A família passa assustada. Estão todos embaraçados. Pais e filhos já não ousam caminhar na beira-mar. As jovens turistas desavisadas recebem propostas e buzinas como souvenir de nosso paraíso urbano. Obviamente, no decorrer da noite o abuso continua. A inocência se perde nos carros, não raramente, luxuosos e envenenados pela luxúria irresponsável de seus condutores. São meninas, meninos, mulheres e homens, no comércio profano do corpo, lambuzados em mel impuro da omissão que atrai a corja covarde que habita os formigueiros do oportunismo.

A polícia passa, mas não para. As autoridades sabem, mas não agem. A sociedade vê, mas ignora. Todos estamos preocupados com temas mais relevantes que a exploração sexual de menores e de maiores. De nada importa a degradação humana, em meio ao álcool, ao fumo, e as drogas. De nada importa o rufianismo paterno, materno ou de qualquer outra modalidade familiar. Nada disso é importante. Manaíra virou um bordel ao céu aberto. Um luxuoso antro com uma vista linda para o mar ou para suntuosidades das lojas de grandes marcas e impérios econômicos. Manaíra faz dinheiro vinte quatro horas. Isso é importante! Somos os Cangussus da pós-modernidade. O dinheiro é o Piancó dos nossos tempos, e a ele tudo, até a honra de Manaíra.

Mas, o que eu tenho com isso? Nada. Afinal, sou apenas um orgulhoso campinense residente em Intermares e apaixonado por nossa Capital.
 
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