quarta-feira, 24 de março de 2010

E-HOMEM

Na era da cibernética, somos dados em data banks. Embora seja inevitável a lembrança de Einstein quando afirmara que “Deus não joga dados!”. O mundo nos conhece e nos controla. Não era diferente com Júlio, mas o Júlio era diferente, isso sim, com certeza. Não que não tivesse capacidade de se adaptar as mudanças impostas pela sociedade contemporânea. Em verdade, tinha sim, tanto que era um solteirão convicto. Mas, não sentia apelo para esta adequação digital, o que, de certa forma, o deixava a margem do processo de informatização do mundo. Mas a empresa que trabalhava não queria perder o bonde da história e passou a perseguir a alcunha de “moderna”. Afinal, vivemos a era do «.com».

Neste novo paradigma de administração, todos os funcionários de escritório ganharam acesso a internet e um e-mail próprio na empresa. Júlio, pouco afeito a esta tecnologia, demorou quase um mês para apreender a enviar os relatórios via e-mail para a presidência da empresa. E esta habilidade custou-lhe a fama de “e-xpert”. No cafézinho, quando passava por perto, alguém logo falava:

- Dr. E-xpert! E aí? Já aprendeu a ligar o notebook?

Os seus colegas de trabalho resolveram tirar uma onda com Júlio. Cadastraram o e-mail dele num site chamado E-ncontro. Trava-se de um site de busca de companheiros e de encontros em geral. Dentre uma gama variada de serviços, era ofertado o serviço de amizade virtual. Onde após o preenchimento de um cadastro de perfil a própria empresa “criava” um AVP - amigo virtual pessoal. O pobre do Júlio foi uma vítima mais que frágil, na verdade indefensável. Passou meses de namoro, diga-se de passagem, dos bons(!), com uma namorada virtual. O nome dela: Nara. Foram meses até o primeiro beijo, e mais alguns para uma relação mais virtualmente sexuada. Ao final, Júlio não tinha dúvidas, Nara era a melhor experiência sexual que tivera, niguém poderia superá-la no teclado. E na cama?! Bem, de que importava?! Para Júlio a tela de seu notebook se tornara a alcova mais inebriante que a vida lhe permitira acesso. Nara era a senhora de seus olhos e ouvidos, provedora de seus arrepios mais espetaculares.

Júlio estava apaixonado, falara, até, em casamento para os mais próximos. Isso se Nara se decidisse pela materialização da relação. O problema era que, para Júlio, Nara era sua alma gêmea. A piada se tornou, cada vez mais, sem graça. Como na canção do Bee Gees:

"I started a joke
Which started the whole world crying

But I didn't see

That the joke was on me"

Os colegas não tinham mais coragem de assumir a peça que pregavam em Julio. Tornaram-se reféns da fábula que arquiteram. Sentiam uma pena profunda por Júlio, ao passo que se auto repugnavam pela diabólica situação a que se submeteram. Acabaram por decidir contar tudo. Em uma carta anônima, detalharam, passo a passo, a fria biografia inescrupulosa de Nara. Neste triste momento, os “colegas” de trabalho revelaram o sórdido joguete, destruindo a humanidade de Nara. Era o fim de algo inexistente, mas, inexplicavelmente, presente na vida do Júlio. Na verdade, Nara estava totalmente incorporada a sua rotina, fazia parte do seu dia e, principalmente, de sua noite.

Traído pela tecnologia que ignorava, mas compensado pelo amor que encontrara, Júlio prosseguiu os contatos. Não importava quem fosse Nara. Passou a adimplir a mensalidade, antes paga pelos colegas de trabalho. Sentia-se como um pai de família provedor. Na verdade, tudo funcionava de forma simples em sua mente. Simples assim: Era Nara e bastava. Era alguém importante que se importava com ele. E este carinho virtual era seu, ou melhor deles, de Júlio e Nara. Ao fim de cada entrega, ele sempre a imaginava exausta, procurando a carteira de cigarros, ainda, trôpega. Para, logo em seguida, desfrutar de cada tragada, revivendo a lascívia de Júlio.

Não sabemos bem como anda a relação de amor de Júlio. Mas que ele amou, amou, e, assim, fez estória. A partir de então passamos a compreender que, em verdade, no mundo global da informação instantânea e digital, somos todos códigos compostos de elementos diversos, escravos de combinações aleatórias, cujas senhas pertencem ao acaso. Sorte de Júlio que, como tão poucos, na sofreguidão do rush cibernético cotidiano, encontrou um amor verdadeiro.

sábado, 13 de março de 2010

O ESPASMO

Martinho era um namorado exemplar. Daqueles que as mulheres quando ouvem notícia sentenciam: «Queria um assim!» Marlene tinha ciência disto, e zelava por seu noivo com todo carinho do mundo. Constantemente, confidenciava com sua mãe e amigas os gestos nobres do noivo, seus galanteios e, principalmente, o respeito que Martinho a tratava.

A verdade é que Martinho merecia sua fama. Sempre de bem com a vida, tinha uma filosofia um tanto sui generis quanto aos relacionamentos amorosos. Costumava dizer que:

- Relacionamento quem faz são os relacionados. Nada mais que isso. Aliás, só isso, e pronto!

Por isso, evitava bebedeiras e, mais ainda, qualquer contato próximo com mulheres. Seus amigos zombavam, mas no fundo todos invejavam a capacidade de Martinho de driblar as oportunidades perigosas. Se ia ao racha de futebol, acompanhava os amigos até a cervejaria, mas após o primeiro, ou no máximo segundo gole, saltava da cadeira e:

- Vou nessa! A Marlene me espera... E mulher como ela não existe!

Realmente, Marlene era linda. E tinha um corpo inacreditável. Centímetro por centímetro, poderia ser inspecionado sem qualquer imperfeição. Uma deusa grega, no Olimpo de Martinho.
Certa vez, no trabalho, uma colega lhe convidou para tomar um chope para aliviar o estresse. E olha, que essa colega não era qualquer uma não, era, simplesmente, a Lívia Campos, sobrinha do governador. Todos da empresa diziam que ela estava na do Martinho. Mas ele, no dia do convite, a chamou para um canto de parede e soltou:

- Olha só Lívia, eu sou Noivo! Entendes? E não posso tá aliviando estresse por aí! Ok? Ou devo chamar a Marlene?

A pobre Lívia, renegada dessa maneira, nunca mais ousou dirigir-lhe qualquer convite ou insinuação.

Certo dia, Martinho recebeu a ligação que o marcaria. Uma voz feminina rouca e lânguida. O impulso inicial foi destratar a oferecida, mas aquela voz não merecia desprezo. Pelo contrário! Era uma voz atrativa, daquelas que soam como verdadeira melodia aos feromônios. Uma voz de sereia, cujo prazer de audição enlouquece e fascina. Enfim, Martinho sentenciou que a voz merecia ser melhor e mais ouvida. No entanto, Martinho avisou logo:
- Sou noivo! Ouvistes?!

No entanto a reposta foi um simples:

- Eu sei... e não me importo. Simplemente, não ligo! E te dido mais, não tenho interesse algum em acabar seu noivado com a Lene...

Desde então, Martinho era tentado dia e noite. Recebia ligações com elogios. Mensagens anônimas no celular. O que mais lhe intrigava era que a interlocutora anônima de certa forma lhe policiava os passos. Neste mistério, permaneceu por meses. Até que aquela bela voz o convidou para um encontro. Martinho relutou, mas aceitou. O encontro fora marcado...

Martinho chegou no centro da cidade, e, de frente à pousada que combinou, utilizou um orelhão para ligar para Marlene, certificando-se que a mesma encontrava-se na faculdade. Respirou fundo e lentamente, tentando controlar seus batimentos cardíacos. Olhou o dizer luminoso com o nome do estabelecimento de hospedagem e adentrou em suas dependências. Procurou o corredor que levava aos quartos, seguiu até o quarto 130. Olhou a maçaneta atentamente, agarrou-lhe e suavemente abriu a porta. Lá estava...

Helena! Ou melhor, Dona Henlena, sua sogra! Em uma convulsão inebriante sua vida fora devassada por si próprio, numa espécie de retrospectiva íntima e não autorizada. Lembrava de Marlene. De Seu Bento, um homem tão bom... Mas a realidade era patente e estava literalmente desnuda em sua frente. Ou melhor, estava apenas com um belo vestido branco e decotado nas costas, sem qualquer lingerie, um anjo tentador e lascivo. E neste mar revolto de conflito e aflição não podia deixar de reconhecer a esplendorosa forma de Helena. Como pudera nunca desejar a D. Helena?

Naquele instante, Helena deslizou pelo carpete se aproximando de Martinho. Pegou-lhe a mão e o conduziu até a beira da cama. Abriu-lhe a camisa e o acaríciou, enquanto se aproximava. Depois, tirou-lhe a camisa, o cinto, os sapatos. Beijou-lhe o abdômen. Levantou e retirou o vestido, abraçando-o com força. Foi quando, consumado pela culpa e pelo desejo, ao ser tocado, levemente, por Helena, que com as pontas dos dedos do pé percorreu-lhe a perna, Martinho tentou falar. Tentou ainda explicar-se. Tentou ao menos agarrá-la, mas um espasmo o derrubou. Um espasmo cruel expulsara sua virilidade e todo seu desejo. Uma erupção de sementes que tornou-lhe um deserto sem vida. Sentiu-se humilhado, e se recolhera ao chão, encolhendo-se como um feto. Helena insistiu com beijos em sua face, mas Martinho já não estava lá. Desiludida Helena o deixou inerte no solo.

No Domingo, todos se reencontraram, quando sentados a mesa, com toda a família reunida, marcaram e celebraram o casamento de Marlene e Martinho.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O ESPELHO


A amizade é um dom muito especial. Uma dádiva divina que não está ao alcance de todos. Fala-se, até, em “amizade verdadeira”. Ora, mas seria a falsa amizade uma expressão de fraternidade? Não nos parece. Por isso, Jonas, Berg e Matos eram privilegiados. Possuíam daquelas amizades que atravessam o tempo e unem as famílias. Frutificaram, inclusive, uma rara amizade feminina entre suas companheiras. Tanto que os casais convencionaram um almoço no primeiro domingo de cada mês. Foi a forma que encontraram de manter contato permanentemente, mesmo diante das obrigações desta pós-modernidade caótica.

Conforme combinado, no primeiro domingo de março, chegaram Matos e Sônia a casa de Berg e Laura, onde já se encontravam Jonas e Cíntia. Após as folias introdutórias balanceadas sempre das piadas da moda lá estavam sentados junto a um pequeno centro de vidro a saborear uma ótima cerveja gelada, daquelas que afetam as obturações mas fazem dengo na alma. Os assuntos iniciaram por trabalho, família e depois política. Este último tema sempre meio polêmico diante da diversidade ideológica dos compadres. Matos ultra-direitista do calibre do PRONA, mas sem qualquer apego a esta sigla. Jonas como bom funcionário público era militante petista mas andava meio envergonhado, diante do que chamava de “fogo amigo” advindo do governo que tanto sonhara e defendera. Berg era empresário ativista liberal financiava candidatos do PR e DEM, por entender serem estas as siglas mais preparadas num mundo globalizado e pertencente à livre iniciativa.

Mas foi na vereda da política que surgiu outro tema em debate: o homossexualismo. Jonas elogiara a iniciativa de uma Deputada do PT por apresentar um projeto de lei instituindo o dia do “Orgulho Gay”. Berg confidenciou que não tinha conhecimento desta propositura e afirmou que apesar de não ser contrário, também não tinha nada a comemorar. No entanto, Matos repugnou a idéia com veemência. Afirmou Matos que tal projeto atentava contra a lei humana e contra a lei divina.

- É um pecado! - bradava Matos com eloquência..

E nesta miscigenação entre o mundo dos homens e o Olimpo dos Deuses o debate esquentou. As mulheres logo se aproximaram, e com naturalidade todas se posicionaram a favor do projeto em prol da causa homoafetiva. Berg sempre escorregadio ponderava o lado positivo do projeto em termos de livre manifestação do pensamento, dignidade da pessoa humana, mas admitia que receava um próximo passo rumo a legalização plena e irrestrita da família gay, ou seja, da adoção realizada por homossexuais. Matos embora sitiado pela maioria sustentava seu repúdio. Até que perdeu o controle, e falou:

- Bom pra gay é bala e pau! A primeira fura ele e o segundo amansa!

Neste momento, sua própria esposa, Sônia, exclamou:

- Afe! Quanta ignorância!

De alguma forma, o ambiente pesou e um constrangimento geral acometeu a todos. O assunto foi finalizado, comeram quietos e se despediram acanhados. Certamente, todos comentariam o episódio lamentável.
Naquele dia Sônia e Matos não trocaram mais nenhuma palavra, numa espécie de guerra fria tão comum aos casais em conflito. Mas quando Sônia cedeu ao sono, o acontecido ainda martelava na consciência de Matos. Na sua mente os dizeres: “Quanta ignorância!”, “Gay”, “Pecado”, “Ignorante”. Como um pé-de-lã, caminhou até o banheiro, sacou do box um batom de Sônia, maquiou-se e passou a se olhar, num misto de Narciso e Fera. Achou-se lindo. Sentiu-se diferente. Teve medo de ser descoberto, ao ouvir o primeiro mínimo ruído, de sobressalto, desfez toda a produção. Não entendia, mas estava convicto de que não mudara, apenas se descobrira.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

A CASA


A casa era um lugar como outro qualquer. Portas, janelas, quartos e gente. Não sei qual desses elementos caracteriza mais a casa. Uma casa sem porta não é casa. Uma casa sem janela, também, não é. Uma casa sem quarto? Pode ser um escritório, mas nunca uma casa. E uma casa abandonada é prédio, não casa. Mas nada, de fato, era igual a casa. Pois, na casa, tinha tudo que era necessário, talvez até em excesso. Mas, se a falta atiça o lado axiológico humano, o excesso atiça o desperdício, que por sua vez provoca a falta. É o ciclo de tudo e dos opostos diametralmente dispostos à indisposição. Mas eu falava da casa...

A casa tinha poucas portas, o suficiente. Uma frontal, maior, uma dos fundos, menor, e uma do lado direito que dava para a varanda lateral, essa última local de ressono das pessoas e de bons e velhos jogos humanos. As portas da casa, inicialmente, não se abriam com facilidade. Melhor dizendo... Eu não conseguia abri-las. Não que não soubesse abri-las, mas as pessoas - algumas de fato, outras de direito - não me permitiam. Tive que fingir coisas. Tipo a responsabilidade, para potencializar meu acesso às portas. No fim, entrava e saia quando bem entendia. Talvez, eu tenha saído demais... Talvez, o ficar tornara-se impraticável às dimensões da casa, afinal eu cresci.

Bem, e as janelas?! Que lindas janelas! Mostraram-me o mundo e, de lá, exercitei minha curiosidade e observação com o devido padrão de segurança. Ora, eu estava em casa, e, na casa, eu enfrentava a rua sem medo. Na rua, muitas vezes, quis estar em casa. Mas o melhor das janelas era na época em que imperava a ausência de grades. Pula janela, pula da janela, pula pela janela, pula para janela, o negócio era pular. Verdade que teve quedas, mas as quedas ensinaram que a vida é oscilante e conflitante ou ação e reação. No entanto, as belas janelas adornadas se foram com a grade. Uma necessidade por um prisma, mas um crime por outro. Acabaram-se os pulos na era dos cadeados.

Os quartos eram as trincheiras da casa. Cada pessoa tinha o seu e o defendia das demais. Afinal, de certo modo, toda casa é um condomínio, com áreas comuns e unidades autônomas. Bem, em verdade, tive que lutar muito por essa autonomia. Era o mais, novo e meu território era sempre o mais invadido, um pouco terra de ninguém. Mas a puberdade chegou. Na revolta, a busca pelo respeito. Acho que a casa nem sempre me respeitou como eu queria, mas ela sempre me acolheu. Meu quarto era a parte da casa que era mais minha. Colei o que queria na parede, maltratei a ordem, me expressei por meio da dança, do canto, lá fui um artista anônimo e recluso. Lá, era feliz.

Enfim as pessoas. Eram muitas. Mas eram todas necessárias. Não entendo a casa sem qualquer uma delas. A ausência de uma delas extinguiria a casa. Porém, a agitação das pessoas fazia a casa parecer pequena. Muitas vezes me irritei com o que chamava "falta de privacidade". Hoje, enxergo que era a impossibilidade do exercício do egoísmo. O egoísmo estava lá. Não só em minha pessoa, mas em todas as pessoas. Sendo que todas as pessoas da casa, na casa, inviabilizavam a expansão e, consequentemente, o exercício do egoísmo. Aos poucos, todas as pessoas foram abandonando a casa. A casa reagia se adaptava, mas nunca tornara a ser a mesma. A diáspora ordinária e consentida das pessoas fizera a casa definhar. Sem a agitação, as discussões, os choros, os abraços, os sorrisos em abundância a casa não era mais a mesma. Era uma casa doente, triste, mas todas as pessoas que saíram, numa teimosia atéia, se negavam a confessar sua participação no assassinato da casa. A agitação cotidiana, só se repetia em datas predeterminadas, que serviam apenas como um tratamento paliativo para casa. A casa ansiosa esperava, sempre, pela próxima reunião das pessoas. Nessas reuniões o assunto era, inevitavelmente, a casa. A casa adorava, se sentia importante, mas, na mesma madrugada, lá estava ela abandonada novamente. Melancolia e saudade.

Chegou, então, o dia em que a última pessoa deixou a casa, e todos aqueles que a tinham abandonado não suportavam reviver a casa. Foi o último ato protagonizado pelas pessoas e nos papéis coadjuvantes, a imobiliária e o empresário. A casa foi demolida e sob seu terreno ergueram um shopping sem qualquer janela. As portas sempre selvagens se antecipavam a qualquer transeunte, na tentativa de engoli-los. Seus quartos frios, agora, tornaram-se aposentos do rei dinheiro e da rainha pecúnia. Quanto às pessoas, elas iam ao shopping, mas lá suas histórias eram tão impessoais e decadentes, já não havia amor. Pois, o amor ficou nas lembranças da casa.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

A náusea

Aquele dia tornara-se inesquecível para Beto. Naquela manhã, por volta das onze horas, quando despertou, sentiu-se metamorfoseado. Já não era o mesmo Beto que se jogou na cama, na madrugada daquele dia. Estava mudado e sabia que era para sempre. Pensava em Nara, incessantemente. Nunca conhecera alguém como ela. Impressionante como eles se deram bem, ontem, durante a noite quase que inteira. Na verdade percebeu que não conversara muito, mas também não beijara pouco. Aí! Por falar nisso, sua boca ardia. Água! Olhava ao redor e via um copo pela metade. Alívio! Institnto de sobrevivência... antes água quente, que ter que se levantar em busca de qualquer coisa. Ah, mas ontem...

De que importa o ontem? Importa o hoje! Naquele árduo momento, Beto estava lá, sozinho, ainda deitado, tentando juntar os pedaços de sua existência. Agregava os detritos de suas memórias para, ao menos, reconstruir o seu passado mais recente: o ontem a noite. E era inevitável, naquele estado ele se perguntar: “O que faço aqui?”, ou “Por que, aqui, estou?”. Não era só pensar, pois pensar incomoda, cansa. Mas o seu professor de filosofia - que era um saco - não cansava de pensar que Descartes pensava que era pensando que ele existia. Mas Beto sabia que isso não era verdade. Ontem mesmo, ele nem lembrava do que pensou, mas tem certeza que não pensou muito, mas a noite existiu e foi boa pra Caracas. Na verdade, Beto estava convicto de que se tivesse pensado muito não teria feito o que fez, não teria conhecido Nara e, aí, a noite não seria especial. Nem sabia ele, o que seria a noite de ontem sem Nara. Bem, não foi, e isso é que importa. Ou pelo menos importava, pois, agora, o que importa é repensar suas ações.

Beto tinha que estudar. No dia seguinte, teria uma prova medonha e não pegou no livro. Aos dezessete anos, a véspera é o dia oficial do estudo. Principalmente, a véspera da reposição, pois agora não tem mais jeito, ou vai ou racha. Por falar em rachar, a dor de cabeça estava rachando tudo! Mas pelo menos estava com Nara na cabeça... e como Nara beijava... ou melhor beijou... e por falar nisso a sua boca ainda arde. Tome água!

Mas voltando as reflexões betinas, ele não parava de pensar no que era. No estilo ser ou não ser, questionava-se: Era um caçador, ou caça? Ele pegara Nara, ou Nara o pegara? Propriedade ou proprietário? A propriedade é um roubo! Ou pelo menos uma roubada. Ele era de todo mundo, mas, até então, somente Nara aceitara a promoção. Provavelmente, os créditos eram da mudança de paradigma em suas operações de marketing. Ontem mentira muito. Foi um discurso elaborado na base do se-colar-colou. Ao fim, estava colado em Nara.

Estava ansioso, era verdade, mas se esforçava, heroicamente, numa resistência às reações orgânicas do desejo. Naquele momento, tão incerto, Beto se entregava às reflexões. Ligar ou não ligar para Nara? Mas como? Cadê o telefone? Esqueceu de anotar?! Ou esqueceu de pedir?! Vacilou... Nesses momentos é que Beto repensava suas condutas.

Mas enfim, Beto continuava ansioso. Uma ânsia incontrolável de viver, pois como que por instinto, sabia que tinha que repelir o que estava sentindo. Era algo novo que o fazia querer não existir ali como era, mas existiria outra forma de existir? E nessa crise existencial, brotava a náusea, e num espasmo violento a ânsia transformou-se em vômito. A primeira ressaca é tão eterna quanto o dia. Perdura até ser sucedida por outra. Mas, Nara não tinha sucessora, era única e eterna. Tanto que seria lembrada, sempre assim, «Nara», apesar de seu nome ser «Mara».

domingo, 14 de fevereiro de 2010

A CERA


Magnólia era de uma família de classe média, com ganhos módicos. Com muito esforço seus pais lhe permitiram frequentar bons colégios. Foi o suficiente para que a inquieta filha aproveitasse a oportunidade para conquistar um bom partido. Ela nunca tinha se disposto à ser mãe. Muito menos, uma que se possa chamar de exemplar. Pelo contrário, casou com Jorge por interesse e jamais escondeu que não pretendia nem sequer dar-lhe um filho. Era vaidosa demais para se imaginar gorda. Não! Nem pensar! Mas se há uma certeza neste mundo carnal e banal, é que nada é certo. Menos de um ano de casada, lá estava Magnólia: grávida.

Durante a gestação a neura familiar foi razoavelmente potencializada. Magnólia exigia uma série de coisas, próprias das grávidas, mas com detalhes típicos de uma mulher alienada e fútil como ela. Não bastava fazer a hidroginástica com personal trainner, nem possuir nutricionista neonatal, ou mesmo comer apenas frutas frescas e produtos diet e light. Sugou literalmente a alma de Jorge. Tanto que o pobre coitado parecia está num enterro no dia em que Leopolddo nasceu. Isso mesmo “Leopolddo” com dois “Ds”. Se fosse para sofrer, que o sofrimento gerasse algo especial.

Leozinho, como era chamado, teve todo o carinho que um Zé-ninguém poderia ter da mãe. Era renegado, e destratado constantemente. Nem sequer foi amamentado por Magnólia, apesar desta ter tido muito leite, era por demais arriscado amamentar. Ora, “Dá estrias!”, esbrajava. Assim, de babá em babá Leozinho foi sendo criado. Seu choro, quando não ignorado, era abafado. Brincadeiras apenas com o pai, Jorge, mesmo assim raramente, a vida de empresário era massacrante, e não lhe restava tempo suficiente para a paternidade.

Esta rotina se seguiu até o fatídico ano de 2003, quando Leozinho já estava com cinco anos de idade, e apresentava problemas comportamentais de isolamento. Jorge andava preocupado com os negócios e sentia-se culpado por Leozinho, pois afinal segundo Magnólia teria sido ele o responsável direto pelo nascimento. Neste ano Jorge teve um infarte fulminante e letal. Magnólia que desconhecia esforço de qualquer natureza, mal se deu o trabalho de requerer a certidão de óbito. Homérica foi sua popa ao tentar assinar a procuração para o inventário e a caneta insistia em falhar. Dizia sempre que nascera no país errado, na família errada, odiava todo a atraso que afirmava testemunhar.

Com a morte de Jorge, ela estava com a empresa nas mãos. Não demorou sequer um ano para que conseguisse endividá-la completamente. Até que chegou-se ao ponto de ter sido aberto um processo de natureza falimentar contra a BOOK SHOW. Era o fim desta simpática cadeia de livrarias, agora, condenada pela impontualidade em seus compromissos empresariais.

Sem nenhuma qualificação que se somasse a sua estúpida eloqüência, Magnólia teve que retraçar sua metas de consumo e posição social. Cogitou trabalhar, mas nada formal se adequava ao seu perfil. Esdutar nem pensar, Resultado: a prostituição foi a solução mais pragmática. Aos 31 anos, Magnólia tinha um corpo escultural, portanto tinha o capital básico para o início do empreendimento. Os primeiros clientes foram os colegas de Jorge, e logo os convites apareciam. Era uma prostituta cara, a Magnólia. O programa saía em torno de R$ 1.000,00 (mil reais). Vez por outra passavam um cheque sem fundo, mas ela se acostumou com estes ossos do ofício de natureza cambial.

Assim, passou-se dois anos. Leozinho com suas babás, Magnólia com seus clientes. E numa Sexta-feira Santa toca o telefone. Ao atender Magnólia, recebe uma grande proposta de trabalho. Daquelas que não se pode perder e que deve-se estar sempre preparada. O cara era rico, velho e esbanjador. Uma presa ideal para ela. Mas ao tentar anotar o endereço do hotel, onde seria o encontro, todas as canetas falhavam. Leozinho se aproximara e tentara dizer algo, quando Magnólia de pronto o empurrou, e o xingou. Na sua ótica, ele sempre atrapalhava, representava o maior estorvo em sua vida. Chorando, a pobre criança orfão de pai e mãe viva, corria para o seu quarto e se entregava ao isolamento. De sua janela, após alguns instantes, avistava sua mãe pegar o carro e sair. Ficaria mais uma tarde observando a vizinhança da janela, enquanto com a ponta do lápis limpava os pequenos ouvidos sedentos de carinho.
 
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